O sobretudo

António Barroso (Tiago)

Às vezes, dou por mim, a recordar
Meus tempos de menino, de criança,
Tão cheio de alegria e de esperança
Nos braços da família, a despertar.

Meu avô – que será lembrança eterna –
Calava-me, enquanto ia trabalhando.
Co’uma corda esticada, atada à perna,
O meu berço, pertinho, ia embalando.

Terno avô, artesão e sapateiro,
Que ia pondo meias solas no calçado,
Olhava sempre o neto, ali ao lado,
Enquanto trabalhava o dia inteiro.

Histórias que jamais irei esquecer,
Ouvidas em redor duma lareira,
Labaredas de tronco de madeira,
Sonhos vivos que, agora, volto a ter.

Dos Domingos, recordo ainda tudo,
Passeio, com meu avô, pela estação,
Puxando, impaciente, a sua mão
Para mostrar, vaidoso, o sobretudo

Feito, por minha avó, com mil cuidados,
Em frente da braseira, p’los serões,
E sorrindo, ante as minhas sugestões
De cima abaixo, pôr botões dourados.

De tecido azul como o céu de Julho,
Macio como núvem que esvoaça,
Vesti-lo era um amigo que se abraça
E que, a todos, se mostra com orgulho.

Passa o tempo, mas ficam na lembrança
Todas essas recordações de outrora,
Quem me dera voltar a ter, agora,
O velho sobretudo de criança.

Parede - Portugal

 



 

 

5/26/2013
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