AS TRAQUINAGENS DE DOROTI

Araí Santos

 

Numa Vilela onde todo mundo se conhecia até pelas costas, morava Doroti uma menina cheia de ideias e muita coragem para executá-las.  Doroti com apenas sete anos de idade já aprontava umas e outras de deixar qualquer um com os cabelos em pé. Além do mais, tinha energias concentradas e gostava de aprontar sozinha dentro de sua esperteza e extravasada imaginação.

Um dia ela deu o xeque mate numa de tantas e outras peraltices. Estava num aglomerado de crianças próximo a calçada da rua. Como já era noitinha, as lâmpadas dos postes já estavam acesas. Então discretamente foi se retirando da companhia dos demais tentando ocultar até sua sombra. Sombra sim, porque qualquer luz projeta sombra: o sol pela altura que se encontra e seu tamanho, projeta mais sombras; uma lâmpada até onde sua luminosidade alcança e uma vela queimando a mesma coisa. Em seguida tirou uma esponja de aço de sua mochila e ocultando-a debaixo de sua blusa que estava folgada ao seu corpo, foi saindo de fininho. Disfarçadamente agradou a cachorrinha Teca, que vivia abanando seu rabinho entre as crianças, esperando que elas deixassem cair alguns petiscos enquanto comiam suas guloseimas, para lambiscar também. Doroti foi mais generosa ainda com Teca e, oferecendo biscoitos inteiros fez com eu a mesma fosse cheirando sua companhia.

Mas vejam que travessura maldosa para Teca, enquanto sua intenção era apenas assustar seus amiguinhos!  Com um cadarço, amarrou a esponja de aço no rabo dela, a qual não desistia de acompanhá-la devido aos saborosos biscoitos. Em seguida riscou fósforo e como aço pega fogo muito fácil expandiu-se em chamas. Teca, apavorada começou a rodopiar-se. O seu desespero foi tão grande que ficou pasma olhando aos círculos de fogo sem soltar um latido sequer. Suas voltas eram tão rápidas que virou numa grande bola de fogo. Doroti deixou a cachorrinha em apuros, e escondeu-se por detrás de um tronco de árvore, onde ninguém conseguia visualizá-la. Seus amiguinhos ao presenciarem aquela cena de longe, ficaram com muito medo, pois não viram a cachorrinha, mas somente o fogo. Então saíram gritando, e todos repetiam ao mesmo tempo: _ É o Boitatá, é o Boitatá!  Enquanto isso a esponja de aço foi devorada pelo fogo sem deixar vestígio.

Pessoas que perceberam o apavoramento das crianças, curiosas saíram nas portas e janelas, mas não puderam observar mais nada.

Passado uns minutos, Doroti reapareceu como se nada tivesse aprontado. E ainda, escutou atentamente o relato de seus coleguinhas que eram unânimes a afirmar: _Vimos o Boitatá, Doroti! A reação da menina foi de espanto fazendo o maior teatro, com expressões faciais e gestos de indignação.

_ É verdade, mas como era ele?

_ Era assim como contam nas histórias: uma bola de fogo que se movimenta e depois se apaga e ninguém vê para onde foi, porque não vai para lugar nenhum!

Os adultos se retiraram como num ?deixa prá lá? ao devaneio das crianças e retomaram aos seus cômodos.

Doroti percebeu que sua peraltice tinha dado certo e quis continuar com suas travessuras, mas precisava de outra estratégia para enganá-los novamente.

Como Crendices podem acontecer em lugares diferentes e estranhos, foi alimentando a imaginação com o mesmo material e o que mais poderia fazer para apavorar novamente seus amiguinhos.

 Passado uns dias já estava com tudo planejado. Subiu na chaminé de sua casa e, nessa ocasião ela mesma foi quem segurou a esponja de aço. Riscou fósforo e fez giros tão rápidos que levantou faíscas para todos os lados. Sem forma definida a esponja de aço consumiu-se entre labaredas. Os efeitos foram tão mirabolantes que até ela ficou encantada com o espetáculo.

 Novamente foi aquele alvoroço sem perceberem a ausência de Doroti. Dessa vez, como havia adultos também muito próximos às crianças, boquiabertos, presenciaram a estranha aparição. Porém, fixos ao inesperado e como o objeto consumiu-se sem deixar rastros, se arrepiaram também, sem encontrar uma explicação lógica.          

Qual a origem daquele fogo se apareceu misteriosamente? Como apagou-se sem que  ninguém jogasse  água ou chegasse com um extintor?

Nisso, Doroti como inocente, se apresenta alheia ao assunto.

_O que aconteceu? Do que vocês estão falando?

_ Doroti! Você nem imagina o que vimos! Com certeza era o Boitatá novamente, pois um fogo inesperado formou-se bem próximo à chaminé e em seguida sumiu.

O assunto virou notícias e havia muitas suspeitas, mas ninguém sabia exatamente o que aconteceu. Então precisavam investigar o fato. Houve vigias que amanhecerem naquele local aguardando qualquer manifestação, mas nada de sobrenatural aconteceu durante a noite.

Doroti estava vibrando com suas façanhas e o segredo lhe fazia cócegas, mas conseguiu guardar ?às sete chaves?. Deixou passar mais uns dias, enquanto enfraquecia o enfoque das estranhas labaredas que não deixaram marcas. Mas para peraltas, as ideias surgem abundantes e desta vez foi bem mais audaciosa. Seu experimento exigia cautela: encher pequenos balões, amarrar com fios quase invisíveis, unir vários ao mesmo tempo e na ponta amarrar uma esponja de aço também. Depois soltaria para que flutuassem. Teria uma vara de uns dois metros de comprimento para alcançar os balões antes que sumissem a céu aberto. Na ponta superior dessa vara colocaria um floco de algodão, embebido com álcool para funcionar como estopim para alcançar o inflamável.  Aí além do fogo teria estouro também para que ficasse mais aterrorizante. Mas como com álcool e fogo não se brinca o inesperado aconteceu. Ao embeber o algodão com álcool, deixou o mesmo com excesso que acabou respingando em seu cabelo. Enquanto cuidadosamente arrumava seus truques e após riscar fósforo, o fogo foi atraído pelo combustível. Aí quem fazia um balé no ar, era Doroti, e seus gritos sucederam como um lamento pedindo socorro.  Quando se deram conta do que estava acontecendo, seu cabelo já estava todo danificado, ainda que tentasse apagá-lo com tapas, reflexo natural de nossa proteção.

Final da história: teve que revelar suas truques e ir ao cabeleireiro para aparar aquele cabelo retorcido e encurtado pelas chamas. E ainda, durante algum tempo precisou usar um turbante para disfarçar o picote irregular até que seu cabelo crescesse um pouco para melhorar o corte.

É isso aí, crianças! Com álcool e com fogo não se brinca nem de brincadeirinha, pois esses elementos oferecem grande perigo quando usados de uma maneira incorreta e principalmente por crianças. 

 
 
 
 
 
 
 
 Arte e Formatação Selena Rumiel
 
Créditos
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