O Panteão Nacional de Portugal abriu ontem as suas portas 
à grandeza poética e cívica de Sophia Sophia Mello Breyner Andersen.
 
Numa cerimónia cheia de pequenos e grandes simbolismos,
 os restos mortais da ilustre escritora e poeta lusitana 
foram depositados na Igreja de Santa Engrácia.
Uma escolha que honra o Panteão Nacional. 
 
 
 
A grande escritora e Poeta
 
 
Sophia Mello Breyner Andersen
 
( Porto, 6 de Novembro de 1919 ? Lisboa, 2 de Julho de 2004 )
 
 
 
 
Quando
 
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
 
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
 
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar'
 
 
 
 
 
 

Sophia de Mello Breyner Andresen
entre as grandes referências culturais e cívicas de Portugal
 
 
A escritora Sophia de Mello Breyner Andresen, cuja transladação do corpo para o Panteão Nacional
se realizou ontem,  quarta-feira, dia 2 de Julho, é "uma das grandes referências culturais e cívicas
de Portugal", afirmou o presidente do PEN Clube Português, Casimiro de Brito.
"Sophia foi a maior poetisa do século XX e vai ficar para sempre na literatura portuguesa. Além disso, é um exemplo cívico e de qualidade humana", disse à Agência Lusa o escritor Casimiro de Brito.
 
Numa homenagem à poetisa, realizada no passado dia 26, na cidade do Porto, onde nasceu, o seu filho, o escritor Miguel Sousa Tavares, afirmou que "a melhor homenagem que se pode fazer à escrita de Sophia, dez anos após a sua morte, é reconhecer que ela continua deslumbrantemente actual".
 
Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu aos 84 anos na sua residência em Lisboa, dez dias antes de receber a Medalha de Honra da Presidente do Chile, por ocasião do centenário do nascimento de Pablo Neruda.

Ao longo da sua carreira, foi condecorada três vezes pela República Portuguesa.
Recebeu, em 1981, o grau de Grã Oficial da Ordem de Sant`Iago e Espada, em 1987, a Grã Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e, no ano seguinte, a Grã Cruz da Ordem de Sant`Iago e Espada.
O Prémio Rainha Sofia de Espanha, em 2003, foi o último galardão que recebeu em vida, de uma lista de doze, iniciada em 1964, com o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, pelo livro "Canto sexto".

Em 1977, "O nome das coisas" valeu-lhe o Prémio Teixeira de Pascoaes e, em 1984, a Associação Internacional de Críticos Literários entregou-lhe o Prémio da Crítica pela totalidade da obra.
Em 1989, foi distinguida com o Prémio D. Dinis pelo livro de poesia "Ilhas", que também recebeu,
no ano seguinte, o Grande Prémio de Poesia Inasset/Inapa. Em 1992, voltou a ser premiada pela totalidade da obra, desta feita com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian para Crianças.
 
 
 
 
 
A autora escreveu várias obras dedicadas ao público infanto-juvenil, nomeadamente, "A menina do mar" (1958),
"A Fada Oriana" (1958), "A noite de Natal" (1959), "O Cavaleiro da Dinamarca" (1964), "O Tesouro" (1970), "A Árvore" (1985).
Em 1994, a Associação Portuguesa de Escritores outorgou-lhe o Prémio 50 anos de Vida Literária e, em 1996, foi homenageada no Carrefour des Littératures (França), um ano depois de ter sido distinguida com o Prémio Petrarca pela Associação de Editores Italianos.
Em 1998, o seu livro "O búzio de cós" valeu-lhe o Prémio Luís Miguel Nava e, no ano seguinte, recebeu o Prémio Camões.
Na cerimónia de entrega, o Presidente da República, Jorge Sampaio, salientou a "beleza tão alta e exacta" que fez da obra de Sophia "uma das criações em que nos revemos e de que nos orgulhamos".
Nessa ocasião, em declarações à Agência Lusa, a poetisa afirmou que foi numa viagem de autocarro que intuiu a natureza do mistério da poesia, ao reparar que a janela através da qual olhava, coincidia por vezes com as janelas das casas.
"Pensei que talvez fosse isso: as palavras às vezes coincidem com os seus significados, e depois deixam de coincidir, e voltam a coincidir outra vez", disse.
Sophia escreveu os primeiros poemas aos 12 anos, mas só aos 24 anos publicou, às suas custas,
o primeiro livro intitulado "Poesia", numa edição de 300 exemplares editada em Coimbra. 

 
A poetisa gostava de escrever sobre o verde, o mar, as ilhas, o amor e o trágico, mas não gostava que lhe perguntassem porque é que escrevia.
"O verdadeiro artista não inventa, vê", afirmou numa das muitas entrevistas que deu, explicando que o artista "consegue apreender na natureza, nos elementos, o elo primordial que une o Homem ao Universo". "Quem escreve sobre uma árvore, entra em ligação com ela", referia. 
 
O Pen Club da Galiza entregou-lhe, em 1999, o Prémio Rosalia de Castro. Em 2001, recebeu o Prémio Max Jacob Étranger, que, pela primeira vez, distinguiu um autor não-francês. Este prémio surgiu na sequência da publicação de uma antologia de poemas seus, em França, intitulada "Malgré les ruines et la mort". 
 
Relativamente aos prémios, a escritora afirmou, em 1990, que estes se devem opor ao consumismo, pois definem um critério de escolha. Além da literatura infanto-juvenil, com oito títulos editados, e da poesia, com 21 publicados, Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu ensaio - "O Nu na Antiguidade Clássica" -, e teatro - "O Bojador" e "O Colar", esta última levada à cena em 2002 pela companhia A Cornucópia.
 

 
 
 
 
 
 
Em 2012, a Porto Editora publicou um conto inacabado da autora, "Os Ciganos", ao qual o seu neto Pedro Sousa Tavares deu continuidade, contando com ilustrações de Danuta Wojciechowska.
Além dos 37 títulos publicados nas diferentes áreas, e de nove antologias, da autora há ainda vários poemas e textos dispersos.
Sophia de Mello Breyner Andresen destacou-se igualmente como tradutora de Dante, Paul Claudel, William Shakespeare, Leif Kristianson, Eurípedes, entre outros autores. A tradução de Dante valeu-lhe uma condecoração do Governo italiano.
A política não passou ao lado da vida da escritora, que lutou pela defesa da liberdade e da justiça. 
 
Assumiu-se como opositora à ditadura do Estado Novo e como antissalazarista. Pertenceu à equipa de fundadores da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e, em 1975, foi eleita deputada pelo Partido Socialista à Assembleia Constituinte, pelo círculo do Porto.
Sem nunca ter deixado de ter um olhar crítico e atento, preferiu, nos últimos anos, afastar-se da política activa, tendo admitido "uma certa desilusão". Em 1979 abandonou formalmente o Partido Socialista. Acerca dos políticos afirmou: "Têm a mania de construir de mais, mas a boa política é aquela que só faz o necessário". 
 
Mulher de fé - defendeu que a religião não condiciona o humano, "mas funda-o"
- foi casada com o advogado e jornalista Francisco Sousa Tavares, falecido em maio de 1993, de quem teve cinco filhos. 
 
"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio.
E livres habitamos a substância do tempo"
escreveu Sophia, sobre o dia 25 de Abril de 1974, o dia da "Revolução dos Cravos" 
 

Fonte: (SIC) Agência Lusa
 
 
 
 
 

DOIS POEMAS DA NOTÁVEL POETISA
 
 
Terror de Te Amar
 
 
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
 
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
 
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen, in ?Obra Poética?
 
 
 
Esta Gente
 
 
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
 
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
 
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
 
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
 
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
 
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
 
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Pesquisa e edição:
 
( Fontes: Internet )
 

 

 

 

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