Rosalía de Castro

 ( Santiago de Compostela, 1837 - Padrón, 1885 )

Escritora galega. Descendente, por parte de sua mãe, de uma família da velha nobreza, o facto de ser filha ilegítima de um sacerdote marca-a profundamente desde muito jovem. Escreve em galego e em castelhano e acaba por se tornar um elemento preponderante do «Resurdimento Galego». Aos vinte anos publica La flor, seu primeiro livro de versos. Nos seus Cantares gallegos (1863), breves glosas de canções populares, manifesta a sua intensa nostalgia da terra galega. Em Follas novas (1880), obra de uma maior intensidade lírica, exprime a sua intimidade com mestria e simplicidade, abordando a natureza como puro símbolo da sua nostalgia desenganada. En las orillas del Sar (1885) acentua-se o seu pessimismo. Os temas predominantes nesta colectânea são a inelutável realidade da dor, a inexorável passagem do tempo e um obsessivo sentimento da morte. No conjunto, a sua obra gira em torno de três temas básicos: uma visão costumeira da Galiza rural, um conteúdo metafísico que a parece aproximar da filosofia existencial e a denúncia das assimetrias sociais da Galiza. Por outro lado, Rosalía é uma importante inovadora estilística, pois utiliza novos ritmos, mais flexíveis e harmoniosos do que os usuais na sua época.

 

 

A SUA POESIA

 

A poesia de Rosalía de Castro destaca-se pela originalidade, variedade temática e valores estéticos, por sua fusão do sentimento nacional com inspiração poética, por sua linguagem lírica eivada de ternura, de amor, de misticismo e melancolia. É difícil definir a arte de Rosalía em poucas palavras. Para Rubem Fonseca, “a poesia de Rosalía de Castro é uma bela porta de entrada para o universo linguístico do povo galego”.

 

A sua poesia será relida e valorizada pela geração do fim do século XIX: Antonio Machado, Miguel de Unamuno, Juan Ramón Jiménez e, mais tarde, Federico García Lorca.

 

 

 

TEXTOS EM GALLEGO

E  EM PORTUGUÊS

 

I – VAGUEDÁS

 

II

 

Bem sei que non hai nada

Novo en baixo do ceo,

Que antes outros pensaron

As cousas que ora eu penso.

 

E bem, ¿para que escribo?

E bem, porque así semos,

Relox que repetimos

Eternamente o mesmo.

 

III

 

Tal como as nubes

Que impele o vento,

I agora asombran, i agora alegran

Os espazos inmensos do ceo,

Así as ideas

Loucas que eu teño,

As imaxes de múltiples formas,

De estranas feituras, de cores incertos,

Agora asombran,

Agora acraran

O  fondo sin fondo do meu pensamento.

 

 

 

 

 

 I – VAGUEDADES

 

 

II

Bem sei que não há nada de

Novo sob o céu,

Que antes outros pensaram

As cousas que ora eu penso.

 

Bem, para que escrevo?

Bem, porque somos assim:

Relógios que repetem

Eternamente o mesmo.

 

III

 

Tal como as nuvens

Que impele o vento,

E ora assombram, e ora alegram

Os espaços imensos do céu,

Assim as idéias

Loucas qu´eu tenho,

As imagens de múltiplas formas,

D´estranhas feituras, de cores incertas,

Ora assombram,

Ora aclaram

O fundo sem fundo do meu pensamento.

 

(Tradução de Andityas Soares de Moura)

 

 

 

 

 

 

TEXTOS EM CASTELLANO

E  EM PORTUGUÊS

 

 

CADA NOCHE


Cada noche llorando yo pensaba
que esta noche tan larga no fuera,
que durase y durase mientras
la noche de las penas me envuelve luchadora…

Más la luz insolente del día,
constante y traidora,
cada amanecer penetraba radiante de gloria
hasta el lecho donde me había tendido con mis congojas.

Desde entonces he buscado las tinieblas
más negras y profundas,
y las he buscado en vano,
porque siempre tras la noche encontraba la aurora…

Sólo en mí misma buscando en lo oscuro
y entrando, entrando en la sombra,
vi la noche que nunca se acaba en mi alma,
en mi alma sola.

 

 

CADA NOITE

Cada noite chorando eu pensava
que esta noite tão longa não fora,
que durasse e durasse enquanto
a noite das angústias me envolvem lutadora…

Mais a luz insolente do dia,
constante e traidora,
cada amanhecer penetrava radiante de glória
até o leito onde me havia estendido com minhas angústias.

Desde então hei buscado as trevas
mais negras e profundas,
e as hei buscado em vão,
porque sempre atrás da noite encontrava a aurora…

Só em mim mesma buscando no escuro
e entrando, entrando na sombra,
vi a noite que nunca se acaba em minha alma,
em minha alma sozinha. 

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

 

 

A LA SONBRA TE SIENTAS DE LAS DESNUDAS ROCAS

A la sombra te sientas de las desnudas rocas,
y en el rincón te ocultas donde zumba el insecto,
y allí donde las aguas estancadas dormitan
y no hay hermanos seres que interrumpan tus sueños,
¡quién supiera en qué piensas, amor de mis amores,
cuando con leve paso y contenido aliento,
temblando a que percibas mi agitación extrema,
allí donde te escondes, ansiosa te sorprendo!

—¡Curiosidad maldita, frío aguijón que hieres
las femeninas almas, los varoniles pechos!,
tu fuerza impele al hombre a que busque la hondura
del desencanto amargo y a que remueva el cieno
donde se forman siempre los miasmas infectos.

—¿Qué has dicho de amargura y cieno y desencanto?
¡Ah! no pronuncies frases, mi bien, que no comprendo;
dime sólo en qué piensas cuando de mí te apartas
y huyendo de los hombres vas buscando el silencio.

—Pienso en cosas tan tristes a veces y tan negras,
y en otras tan extrañas y tan hermosas pienso,
que… no lo sabrás nunca, porque lo que se ignora
no nos daña si es malo, ni perturba si es bueno.
Yo te lo digo, niña, a quien de veras amo;
encierra el alma humana tan profundos misterios
que cuando a nuestros ojos un velo los oculta
es temeraria empresa descorrer ese velo;
no pienses, pues, bien mío, no pienses en qué pienso.

—Pensaré noche y día, pues sin saberlo muero.

Y cuenta que lo supo, y que la mató entonces
la pena de saberlo

  

À SOMBRA TE SENTAS DAS DESNUDAS ROCHAS  

À sombra te sentas das desnudas rochas,
e no canto te escondes onde zumbe o inseto,
e ali onde as águas estancadas cochilam
e não há irmãos seres que interrompam teus sonhos,
quem soubesse em que pensas, amor de meus amores,
quando com leve passo e contido alento,
tremendo a que percebas minha agitação extrema,
ali onde te escondes, ansiosa te surpreendo!

— Curiosidade maldita, frio ferrão que feres
as femininas almas, os varonis peitos!,
tua força impeli ao homem a que busque a profundidade
do desencanto amargo e a que remova o lodo
onde se formam sempre os odores infectados.

— Que hás dito de amargura e lodo e desencanto?
Ah! Não pronuncies frases, meu bem, que não compreendo;
Diz-me só em que pensas quando de mim te afastas
e fungindo dos homens vais buscando o silêncio.

— Penso em coisas tristes às vezes e tão negras,
e em outras tão estranhas e tão formosas penso,
que… não as saberás nunca, porque o que se ignora
não nos danifica se é mal, nem perturba se é bom.
Eu te o digo, menina, a quem deveras amo;
encerra a alma humana tão profundos mistérios,
Que quando a nossos olhos um véu os oculta
é temerário empreendimento retroceder esse véu;
não penses, pois, meu bem, não penses em que penso.

— Pensarei noite e dia, pois sem sabê-lo morro.

E conta o que soube, e que a matou então
a pena de sabê-lo.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

 

        

Pesquisa e edição:

( Fontes: Internet - diversas )
 
 
 
 
 
 

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