?Não é difícil alimentar pensamentos admiráveis quando as estrelas estão presentes?

                                                                                                      Marguerite Yourcenar

 

 

Marguerite Yourcenar

08/06/1903, em Bruxelas (Bélgica) - 17/12/1987, Bar Harbor (EUA)

 

 

Marguerite Yourcenar nasceu em 1903, em Bruxelas (Bélgica). Yourcenar é um anagrama imperfeito de seu sobrenome verdadeiro: Crayencour.

Descendente de uma família de origem aristocrata, não chegou a conhecer a mãe, que morreu poucos dias após o seu nascimento. Educada pelo pai, estuda línguas - latim, grego, italiano e inglês - e viaja em sua companhia durante grande parte da infância.

Começa a escrever ainda na juventude, tendo publicado seu primeiro livro, O Jardim das Quimeras, aos 17 anos. Em 1924, numa de suas viagens pela Itália, conhece em Tivoli a villa Adriana e inicia o primeiro caderno de notas para o livro Memórias de Adriano (1951), até hoje sua obra mais conhecida.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, Yourcenar fixa residência nos Estados Unidos; em 1947, naturaliza-se cidadã norte-americana. Em 1971, torna-se membro estrangeiro da Academia Belga de Língua e Literatura. Nove anos depois, seria a primeira mulher eleita para a Academia Francesa.

Marguerite Yourcenar morreu em 1987, nos EUA. Entre seus outros livros de ficção e ensaio, podem-se mencionar A Obra em Negro (1968), O Labirinto do Mundo (1974-77), Mishima ou A Visão do Vazio (1981) e O Tempo, Esse Grande Escultor (1983).

 

 

Excerto da sua obra: ?O Tempo esse grande escultor?

«Não julgues. A vida é um mistério, cada um obedece a leis diferentes. Conheces porventura a força das coisas que os conduziram, os sofrimentos e os desejos que cavaram o seu caminho? Surpreendeste porventura a voz da sua consciência a revelar-lhes em voz baixa o segredo do seu destino? Não julgues: olha o lago puro e a água tranquila onde vêm quebrar-se as mil vagas que varrem o universo? É preciso que aconteça tudo aquilo que vês. Todas as ondas do oceano são precisas para levar ao porto o navio da verdade.

Acredita na eficácia da morte do que queres para participares do triunfo do que deve ser.»

?Em Memória de Diotima: Jeanne de Vietinghoff?, In O Tempo esse grande escultor, Marguerite Yourcenar. 

 

 

 

Outro excerto desta importante obra:

 

Gherardo

«Não irei mais longe, Gherardo.

Não te acompanho mais porque o trabalho urge

e eu sou um homem velho. Sou um homem velho, Gherardo.

Às vezes, quando te entregas mais à ternura,

chegas a chamar-me teu pai. Mas eu não tenho filhos.

Nunca encontrei mulher tão bela como as minhas figuras de pedra,

mulher que ficasse horas imóvel sem falar,

como coisa necessária que não precisa de agir para ser,

e nos faz esquecer que o tempo passa porque está sempre presente.

Mulher que se deixe olhar sem sorrir nem corar

porque compreendeu que a beleza é qualquer coisa de grave.

As mulheres de pedra são mais castas que as outras,

e mais fiéis, porém, são estéreis.

Não há fenda por onde se possa introduzir nelas o prazer,

a morte, ou a semente de uma criança,

e por isso elas são menos frágeis.

Por vezes quebram-se e em cada pedaço de mármore

fica contida a sua beleza inteira, como Deus

que está em todas as coisas,

mas nada de estranho entra nelas que dilate o seu coração.

Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem,

mas as coisas só belas são solitárias como a dor humana.

Gherardo, não tenho filhos.

Eu bem sei que a maioria dos homens não tem propriamente um filho:

têm Tito, ou Caio, ou Pedro, e não é a mesma alegria.

Se eu tivesse um filho,

ele não se havia de parecer com a imagem que eu dele formara

antes de existir. Assim também as estátuas que faço

são diferentes daquelas que comecei por sonhar.

Mas Deus permite-se ser conscientemente criador.

Se fosses meu filho, Gherardo, eu não te amaria mais,

mas não teria que perguntar-me porquê.

Toda a minha vida procurei respostas a perguntas

que talvez não tenham resposta e perscrutei o mármore

como se a verdade se encontrasse no coração das pedras,

e espalhei as cores para pintar muralhas

como se se tratasse de fixar acordes sobre um enorme silêncio.

Tudo se cala, sabes, até a nossa alma ?

ou então somos nós que não ouvimos.

Assim, tu partes.

Na minha idade já não se dá importância a uma separação,

mesmo que definitiva. Eu bem sei que os seres que amamos e que nos amam mais

se vão separando insensivelmente de nós a cada momento que passa.

É também deste modo que se vão separando de si próprios.

Estás sentado sobre essa pedra e julgas-te ainda aí,

mas o teu ser, voltado para o futuro, não adere mais ao que foi a tua vida,

e a tua ausência já começou. É certo que compreendo

que tudo isto é ilusão, como o resto, e que o futuro não existe.

Os homens que inventaram o tempo,

inventaram por contraste a eternidade, mas a negação do tempo

é tão vã como ele próprio. Não há nem passado nem futuro

mas apenas uma série de presentes sucessivos,

um caminho perpetuamente destruído e continuado

onde todos vamos avançando.

Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas:

vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los.

Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe,

enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela.

Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo,

assim tu também não és mais para mim

do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver.

Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo.

Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.»

 

Marguerite Yourcenar

?O tempo esse grande escultor?

trad. helena vaz da silva

 

 

 

 

Marguerite Yourcenar, para além de ter sido uma escritora foi, também, uma mulher muitissímo polémica que teve um papel activo no pensamento e na sociedade ao longo de uma grande parte do século XX.

A obra de Marguerite é extensa, nem sempre é muito bem compreendida e por vezes, tem de ser ?Bem mastigada e digerida?, mas é fácil e ao mesmo tempo e generosa, fala de tudo o que há mais de mil anos fazia sentido, e daqui muitos anos acho que vai continuar a fazer todo o sentido.

 

 

Memórias de Adriano é um livro que parece ser "difícil": a escrita faz-se na primeira pessoa, com o Imperador Adriano, ele próprio, vagueando pelas suas memórias. Mas logo que se faça a adaptação ao estilo da autora, sem pré-aviso, começa-se a ficar envolvido na teia e, subitamente, quase magicamente, já estamos a sentir e a viver os tempos de Adriano. As suas viagens à volta do Império, os seus sentimentos para com os seus amigos e inimigos, as intrigas palacianas na sua corte, os seus pensamentos políticos e filosóficos sobre Roma e os Romanos, sobre os povos da Ásia Menor e do Egipto, sobre os bárbaros do Norte, as suas campanhas militares, tudo parece estar a acontecer e fazer parte da própria vida do leitor. É considerada uma peça de escrita fabulosa e única!

É nem mais nem menos que o drama da paixão de Adriano pelo jovem Antinoo está lá toda, maravilhosa, apaixonada, dolorosa, pungente, emocionante...

Fala de tudo o que há mais de mil anos fazia sentido, e que de aqui a tantos mil, continuará a fazer.

 

 

 

 

Excerto de Memórias de Adriano:

[?]

A ficção oficial quer que um imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que eu nasci; foi a esse país seco e no entanto fértil que sobrepus mais tarde muitas regiões do mundo. A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias. O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas. As de Espanha tinham-se ressentido dos ócios da província. A escola de Terêncio Scauro, em Roma, ensinava mediocramente os filósofos e os poetas, mas preparava bastante bem para as vicissitudes da existência humana: os magísteres exerciam sobre os discípulos uma tirania que eu teria vergonha de impor aos homens; cada um, encerrado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam outra coisa. Estes pedantes enrouqueciam em disputas de palavras. As querelas de precedência, as intrigas, as calúnias familiarizaram-me com o que eu devia encontrar depois em todas as sociedades em que vivi, e a tudo isso juntava-se a brutalidade da infância. Todavia, estimei alguns dos meus mestres e essas relações estranhamente íntimas e estranhamente ilusivas que existem entre o professor e o aluno e amei as sereias cantando no fundo de uma voz trémula, que pela primeira vez nos revela uma obra-prima ou nos dá a conhecer uma ideia nova. No fim de tudo, o maior sedutor não é Alcibíades, é Sócrates.

 

 

Os métodos dos gramáticos e dos retóricos são talvez menos absurdos do que eu pensava nessa época em que estava sujeito a eles. A gramática, com a sua mistura de regra lógica e de uso arbitrário, propõe ao jovem espírito um antegosto pelo que lhe oferecerão mais tarde as ciências do comportamento humano, o direito ou a moral, todos esses sistemas em que o homem codificou a sua experiência instintiva. Quanto aos exercícios de retórica em que éramos sucessivamente Xerxes e Temístocles, Octávio e Marco António, exaltavam-me; sentia-me Proteu. Ensinaram-me a entrar alternadamente no pensamento de cada homem, a compreender que cada um se decide, vive e morre segundo as suas próprias leis. A leitura dos poetas teve efeitos mais perturbantes ainda: não tenho a certeza de que a descoberta do amor seja forçosamente mais deliciosa que a da poesia. Esta transformou-me: a iniciação da morte não me introduzirá mais profundamente num outro mundo que certo crepúsculo de Virgílio. Mais tarde preferi a rudeza de Énio, tão próxima das origens sagradas da raça, ou a sábia amargura de Lucrécio, ou à generosa abundância de Homero, a humilde parcimónia de Hesíodo. Apreciei sobretudo os poetas mais complicados e os mais obscuros, que obrigam o meu pensamento à mais difícil ginástica, os mais recentes ou os mais antigos, aqueles que me abrem caminhos novos ou me ajudam a reencontrar pistas perdidas. [...]

Marguerite Yourcenar (1983). Memórias de Adriano (2ª Ed.). (Maria Lamas, Trad.)Lousã

 

 

 

Alexis, é outra das grandes obras da escritora que aborda a então polémica temática da homosexualidade.

 

 

Alexis é um homem, um músico que decide pôr termo a três anos de casamento por querer assumir por completo aquela que é a sua sexualidade. Esta obra é, pois, a confissão de Alexis a Monique, sua mulher. Mas é uma confissão contida, não explícita... é uma confissão que se deve subentender.

 

Excerto de Alexis:

Fui educado pelas mulheres. Era o último filho de uma família muito numerosa; era de compleição doentia; a minha mãe e as minhas irmãs não eram muito felizes; razões de sobra para que eu fosse amado. Existe tanta bondade na ternura das mulheres que durante muito tempo julguei poder dar graças a Deus. A nossa vida, tão austera, era aparentemente fria; tínhamos medo de meu pai; mais tarde, dos meus irmãos mais velhos; nada aproxima tanto as pessoas, como terem medo juntas. Nem a minha mãe nem as minhas irmãs eram muito expansivas; a sua presença era como a dessas lâmpadas frouxas, muito suaves, que mal iluminam, mas cujo clarão uniforme impede que faça demasiado escuro e se fique realmente só. Não se imagina quanto há de tranquilizador, para uma criança inquieta como eu era então, na afeição sossegada das mulheres. (...)

Encontro-me pela segunda vez à beira de uma confissão; melhor será fazê-la de imediato e com toda a simplicidade. As minhas irmãs, bem o sei, também tinham companheiras, que viviam familiarmente connosco, e das quais acabava por julgar-me quase irmão. Contudo, nada parecia impedir que eu amasse alguma dessas raparigas e talvez vós própria achareis singular que o não tenha feito. Precisamente, era impossível. Uma intimidade tão familiar, tão tranquila, arredava as próprias curiosidades, as próprias inquietações do desejo, supondo que a tal me abalançasse junto delas. Não creio excessiva a palavra veneração, que há pouco empregava, aplicada a uma mulher de grande bondade; cada vez menos o creio. Suspeitava já (exagerava, até) quanto há de brutal nos gestos físicos do amor; ter-me-ia repugnado aliar essas imagens da vida doméstica, sensata, perfeitamente austera e pura, a outras imagens, mais apaixonadas. Não nos enamoramos daquilo que respeitamos, nem porventura daquilo que amamos; não nos enamoramos sobretudo daquilo com que nos parecemos; e aquilo de que eu mais me diferençava não era das mulheres. (...)

Dir-se-ia que eu quis explicar há pouco as minhas inclinações por influências exteriores; contribuíram por certo para as fixar; mas vejo perfeitamente que devemos atentar em razões muito mais íntimas, muito mais obscuras, que não compreendemos bem porque se escondem dentro de nós. Não basta ter determinados instintos para se esclarecerem as suas causas, nem ninguém pode, afinal, explicá-las por inteiro; por isso não insistirei. Queria simplesmente mostrar que esses instintos, justamente porque eram naturais em mim, podiam desenvolver-se durante muito tempo sem que eu desse por eles. As pessoas que falam só pelo que ouviram enganam-se quase sempre, porque estão a ver de fora, e vêem grosseiramente. Não imaginam que certos actos que consideram repreensíveis possam ser ao mesmo tempo fáceis e espontâneos, tal como a maior parte dos actos humanos, aliás. Acusam o exemplo, o contágio moral e adiam apenas a dificuldade de explicar. Não sabem que a natureza é mais diversa do que se julga; nem querem saber, porque lhes é mais fácil indignarem-se do que pensar. Fazem o elogio da pureza; não sabem quanto pode haver de turvo na pureza; ignoram sobretudo a candura do erro.

(Marguerite Yourcenar- ALEXIS)

 

                                              

 

Marguerite Yourcenar

Toda uma vida dedicada à literatura

 

 
 
 
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