Ivan Junqueira
( RJ, 03/09/1934  -  03/07/2014 )

"A poesia brasileira de hoje é muito superior à que se escreve noutras línguas"  (Em entrevista exclusiva a Cláudio Aguiar para O Pão n. 41, Fortaleza, Ce, Maio de 1997).

 

Ivan Junqueira  é um jornalista, poeta e crítico literário brasileiro. É membro da Academia Brasileira de Letras onde ocupa a cadeira de numero 37.  Carioca, natural do Rio de Janeiro, hoje com 80 anos, deixou incompletos os cursos de Medicina e Filosofia mas abraçou definitivamente a literatura. Hoje é dono de uma invejável obra marcada por livros que lhe dão o direito de ostentar os títulos de poeta, tradutor, ensaísta, crítico e jornalista com merecido reconhecimento nacional.

 

     

 

 

Abaixo, algumas de suas poesias:

 
 
 
Esse punhado de ossos
(A Moacyr Félix)
 

Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.
 
 
 
 
 
 
 
Talvez o vento saiba
 

Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.
 
Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.
 
Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.
 
 
 
 
 
 
 
Palimpsesto
(A Antônio Carlos Secchin)
 

Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
 
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
 
 
 
 
 
 
 
Epitáfio
 
 
De tua história, nada;
ou tudo, se quiseres:
entre uma e outra data,
a fábula de seres
nunca o tangível, mas
o pássaro, o maralto
(o passo, não: o salto
em vão, fora do espaço),
o amor, vale dizer:
sua forma álgida e rara,
avessa à coisa amada
– e, súbito, colher
a morte, flor cediça,
dentro da vida.
 
 
 
 
 
 
Hoje
                                 
 
 A sensação oca de que tudo acabou
                                    o pânico impresso na face dos nervos 
 o solitário inverno da carne 
 a lágrima, a doce lágrima impossível...
 e a chuva soluçando devagar
 sobre o esqueleto tortuoso das árvores
 
 
 
 
 
 
E se eu disser
 
E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata
 

 
 
 
Testamento
 
 
Sem trilhas no labirinto,
solitário, a passo lento,
leio o infausto testamento
de um infante agora extinto.
 
O que ensina esse lamento
a quem o escuta e, faminto,
só o aprende à luz do instinto,
e nunca à do entendimento?
 
Não será acaso o vento
o que nas vértebras sinto?
Ou será que apenas minto,
e mente-me o pensamento?
 
Não há dor nem sofrimento
no que leio, mas consinto
em que ali tudo está tinto
do mais fáustico argumento:
 
não o aroma do jacinto
nem a paz do esquecimento,
mas o grifo que, violento,
verte o verde do absinto.
 
 
 
 
 
 
No leito fundo
 
 
No leito fundo em que descansas,
em meio às larvas e aos livores,
longe do mundo e dos terrores
que te infundia o aço das lanças;
 
longe dos reis e dos senhores
que te esqueceram nas andanças,
longe das taças e das danças,
e dos feéricos rumores;
 
longe das cálidas crianças
que ateavam fogo aos corredores
e se expandiam, quais vapores,
entre as alfaias e as faianças
 
de tua herdade, cujas flores
eram fatídicas e mansas,
mas que se abriam, fluidas tranças,
quando as tangiam teus pastores;
 
longe do fel, do horror, das dores,
é que recolho essas lembranças
e as deito agora, já sem cores,
no leito fundo em que descansas.
 
 
 
 
 
 
Lição
 

À beira do claustro
o monge se inclina
e na pedra aprende
o que a pedra ensina:
que a vida é nada
com a morte por cima,
que o tempo apenas
este fim lhe adia
e que o ser carece
de não ser ainda,
pois à luz se esquiva
do que o purifica:
a doce pedra,
sem musgo ou limo,
o pátio só,
conquanto o sino,
o ermo das coisas
simples e humildes.
 
 
 
 
 
 
Quando solene e agudo
 

Quando solene e agudo eu te penetro,
mais agudo que o gume de uma adaga,
e à tua ilharga, que de suor se alaga,
me enlaço como quem abraça um cetro,
e lambo a tua espádua que naufraga
sob o sêmen fugaz com que perpetro
em ti o que não falo ou mal soletro
tal o peso do pasmo que me esmaga,
sou como um rei na cripta de uma vaga
cuja espuma engalana cada imagem
ou palavra que ruge na voragem
das páginas sagradas desta saga.
Quando me afundo em ti, útero adentro,
como Deus, numa esfera, estou no centro.
 
 
 
 
  
 
Prólogo
 

Eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.
Na infância, quando fui relva,
sentia os pés dos efebos
a calcar-me as frágeis vertebras
e colhia das donzelas
o frêmito que, venéreo,
era um augúrio da queda.
 

Depois, quando fui cipreste,
vi como o vento, em seus dédalos,
cingia-me a áspera testa
e tangia-me as ideias
que nos ramos, vãs quimeras,
pousavam como uma névoa,
úmidas ainda das trevas
e do abismo de que vieram.
 

Quando fui córrego, as pedras
me ensinaram que o critério
do que em tudo permanece,
nunca está nelas, inertes,
mas nas águas que se mexem
com vário e distinto aspecto,
de modo que não repetem
o que antes foi (e era breve).
 

Quando enfim galguei o vértice
de alguém que eu mesmo não era,
compreendi que esse processo
de sermos outros (e até
termos em nós outro sexo)
nada em si tinha de inédito:
já se lia no evangelho
de um deus ambíguo e pretérito.
 

E assim fui sendo esse leque
de coisas fluidas e inquietas,
jamais levianas, bem certo,
mas antes, em seu trajeto,
vertentes as mais diversas
de uma só e única célula:
a da matriz que não é
senão seu próprio reverso.
 

Espelho de meus espectros,
urna de engodo e miséria,
alma sôfrega e sem tréguas,
osso escasso no deserto
onde jejua um profeta,
solidão, infâmia e tédio
– eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.
 
 
 
 
 
 
 
 
Pesquisa e edição:
( Fonte: Internet )
 
 
 
 

 

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