Hélia Correia é a vencedora
do Prémio Camões / 2015
 
 
A escritora é o 11.º português a receber aquele que é considerado o mais importante prémio literário destinado a autores de língua portuguesa.
O Prémio Camões 2015 foi atribuído por unanimidade à escritora Hélia Correia. O prémio, no valor de cem mil euros, foi anunciado no Palácio São Clemente, sede do consulado português do Rio de Janeiro, onde esteve reunido o júri.
 
 
 
A palavra do seu editor

Para Francisco Vale, que vem editando a obra da escritora na “Relógio d'Água” desde 1983 – "praticamente desde que existe a editora" – é um prémio inesperado mas merecido. "A Hélia é um dos escritores que melhor trata a língua portuguesa, com uma obra muito diversificada – romance, poesia, obras dramáticas, contos, literatura infanto-juvenil", diz. "O português dela é muito fecundo. Tem um estilo próprio, com uma grande precisão de linguagem. Cada frase tem o número exacto de sílabas. Ela leva o rigor da escrita a esse ponto". Além de que "consegue criar personagens muito originais que vão ficar na literatura portuguesa", nota o editor.
 
 
Hélia Correia nasceu em Lisboa, em 1949, mas cresceu em Mafra, terra da família materna. “A minha infância e a de todo o meu grupo de amigos foi de algum modo especial”, explica ela, acrescentando que o pai era um anti-fascista que tinha estado preso ainda antes de ela nascer e que viveu sempre entre pessoas da oposição ao regime salazarista. “Tivemos uma educação extremamente progressista, muito igualitária, e nada sexista, completamente desfasada da educação normal da época”, conclui.
 
 
A autora estreou-se com O Separar das Águas, em 1981, e O Número dos Vivos, em 1982. A Casa Eterna (Prémio Máxima de Literatura, 2000), Lillias Fraser  (Prémio de Ficção do Pen Club, 2001, e Prémio D. Dinis, 2002),  Bastardia (Prémio Máxima de Literatura, 2006) e Adoecer (Prémio da Fundação Inês de Castro, 2010) são alguns títulos da sua bibliografia. Vinte degraus e outros contos foi publicado no ano passado (Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco 2014).
 
 
 

 
 
                                 
 
                                                          
 
No seu regresso à poesia, com A Terceira Miséria, Hélia Correia parte da famosa e devastadora pergunta de Friedrich Hölderlin: «para que servem os poetas em tempo de indigência?» Uma questão que faz tanto sentido hoje como fazia há dois séculos, porque mesmo «sem deuses» ou o «sentimento / sequer da sua falta», mesmo reduzidos agora à condição de «pobres confortáveis», sofremos de «idêntica indigência». Ameaçada por Persas que desta vez chegam do Norte, é na Grécia que se volta a jogar o nosso futuro enquanto civilização.
A par de Hölderlin, o da «meiga loucura», Hélia convoca Nietzsche, outro germânico condenado a enlouquecer, porque «uma vida / não chegaria para tanto adeus». E se o primeiro Friedrich «falava com fantasmas», o segundo foi o «anunciador», o que «caminha / sobre águas estagnadas e parece, / ao afundar-se, desenhar no lodo / Um mapa para o qual não há leitura». O que há é o «rasto extraordinário» da beleza, a imagem de uma Grécia idealizada, ardente, esplendorosa, que também chamou Byron e os «jovens da Europa», a Grécia da «rápida alegria / que levanta o cavalo em plena guerra», onde os sábios eram «enfurecidos gloriosos» que muito bebiam e cantavam, recitando a Ilíada de cor e desdenhando da paciência.
A helénica Hélia lamenta os «amados vestígios entretanto / pisados, arrastados pelos becos, / os véus de outrora presos na imundície» e enumera as três misérias que se foram abatendo umas sobre as outras. Primeiro, a «deserção dos deuses». Depois, a «miséria da interpretação / que tudo trai». E por fim a miséria actual: «A de quem já não ouve nem pergunta. /
 A de quem não recorda. E, ao contrário / Do orgulhoso Péricles, se torna
/ Num entre os mais, num entre os que se entregam, / Nos que vão misturar-se como um líquido / Num líquido maior, perdida a forma, / Desfeita em pó a estátua.»

Esta é uma poesia do desencanto e da revolta diante do «apetrecho dos destruidores», essa «arrogância / pela qual o ocidente se perdeu». Há nestes versos muita melancolia, uma tristeza face às ruínas (hoje mais simbólicas do que literais), um sentido agudo do que ficou perdido talvez para sempre, mas também uma vontade de escapar ao abismo da resignação. Por baixo do «ferro retorcido», acredita a autora dos «exercícios» sobre Antígona e Medeia, esconde-se uma Atenas que se mantém oculta, à espera de novos mensageiros que esvoacem pelo éter, alimentando a «ardência do improvável».

Como as ágoras de há 2500 anos, as praças voltaram a ser lugares onde se escuta a «fervilhante / palavra própria da democracia» e a «gente do Sul» que um dia «se desnorteou» encontrará decerto formas novas de se orientar. Uma esperança que se materializa, inteira, no poema final:
 
 
 
De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
a ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.
 
  
 
Quatro poemas de Hélia Correia
 
1.
 
Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;
 
 
 
2.
 
Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.
 
 
 
7.
 
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
 
23.
 
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
 
 
 
[ in A Terceira Miséria, Relógio d’Água, 2012 ]
 
 
 
 
 
 
 
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Fonte:
 
Jornal O Público
 
 

 

Pesquisa e edição:

( Fontes: Internet )
 

 

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