Gregório de Matos Guerra

( 1623/33 - 1695/6 )

 

 

Aquele que é considerado o maior poeta barroco do Brasil, nasceu em Salvador, em 7 de Abril de 1623/33
Seu pai era português, nascido em Guimarães, o berço da nacionalidade portuguesa. Contemporâneo de Bocage e de outros grandes poetas e escritores portugueses do século XVII, Gregório de Matos, que viria a falecer no Recife em 1695/6 levava o apelido de Boca do Inferno. 

Gregório de Matos firmou-se como o primeiro poeta brasileiro: cultivou a poesia lírica, satírica, erótica e religiosa.  Há poucos registros da vida de Gregório de Matos Guerra. Não há certeza das datas de nascimento e morte (diz-se que o poeta nasceu em 1623 ou 1633 e morreu em 1695 ou 1696). Não publicou nada em vida, não deixou poemas escritos por sua própria mão ? o que mostra a precariedade da vida intelectual na América Portuguesa, onde eram proibidas a imprensa e a universidade. Os livros eram editados em Portugal, sob risco de censura, e os estudos superiores eram feitos em Lisboa ou Coimbra. É extremamente precário (e discutível) o conhecimento que temos da vida do poeta.
 
A preocupação religiosa do escritor revela-se no grande número de textos que tratam do tema da salvação espiritual do homem. 

A maior parte da obra está contida em seis volumes, cuja edição, a cargo da Academia Brasileira de Letras, decorreu entre 1923 e 1933, sob a direção de Afrânio Peixoto.


Convido-vos a ler, abaixo, algumas de suas poesias e, como sempre, desejo-vos; Boa Leitura.

 
 
 
 
 
 


Os seus sonetos

( ...de sublinhar o encanto da linguagem da época contido nas diferentes abordagens temáticas ).


 
                                                                           
    Ao dia do juizo
 
O alegre do dia entristecido,
O silêncio da noite perturbado
O resplendor do sol todo eclipsado,
E o luzente da lua desmentido!
 
Rompa todo o criado em um gemido,
Que é de ti mundo? onde tens parado?
Se tudo neste instante está acabado,
Tanto importa o não ser, como haver sido.
 
Soa a trombeta da maior altura,
A que a vivos, e mortos traz o aviso
Da desventura de uns, d"outros ventura.
 
Acabe o mundo, porque é já preciso,
Erga-se o morto, deixe a sepultura,

Porque é chegado o dia do juízo.
 
 
 
 
 
 
 
Queixa-se o poeta em que o mundo vay errado, e querendo
emendâlo o tem por empreza difficultosa.
 
 
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
 
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
 
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
 
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.
 
 
 
 
 
Moraliza o poeta seu desasocego na harmonia incauta de hum
passarinho, que chama sua morte a compaços de seu canto.
 
 
Contente, alegre, ufano Passarinho,
Que enchendo o Bosque todo de harmonia,
Me está dizendo a tua melodia,
Que é maior tua voz, que o teu corpinho.
 
Como da pequenhez desse biquinho
Sai tamanho tropel de vozeria?
Como cantas, se és flor de Alexandria?
Como cheiras, se és pássaro de arminho?
 
Simples cantas, e incauto garganteias,
Sem ver, que estás chamando o homicida,
Que te segue por passos de garganta!
 
Não cantes mais, que a morte lisonjeias;
Esconde a voz, e esconderás a vida,
Que em ti não se vê mais, que a voz, que canta.
 
 
 
 
 
À morte do Padre Antonio Vieyra.
 
Corpo a corpo à campanha embravecida,
Braço a braço à batalha rigorosa
Sai Vieira com sanha belicosa,
De impaciente a morte sai vestida.
 
Invistem-se cruéis, e na investida
A morte se admirou menos lustrosa,
Que Vieira com força portentosa
Sua ira cruel prostrou vencida.
 
Porém ele vendo então, que na empresa
Deixava a morte à morte: e ninguém nega,
Que seus foros perdia a natureza;
 
E porque se exercite bruta, e cega
Em devorar as vidas com fereza,
A seu poder rendido a sua entrega.
 
 
 
 
 
Descreve o que era realmente naquelle tempo a cidade da
Bahia de mais enredada por menos confusa.
 
 
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
 
Em cada porta um freqüentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.
 
Muitos Mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
 
Estupendas usuras nos mercados,
odos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.
 
 
 
 
 
A hua fonte que nasceo milagrosamente ao pé de huma capella
de N. Senhora das Neves na Freguezia das Avelãas.
 
 
Desse cristal, que desce transparente,
Nesse aljôfar, que corre sucessivo,
Desce a nós o remédio compassivo,
Corre a nós o desejo diligente.
 
De vosso ser lhe nasce o ser corrente,
Manancial de graças sempre vivo,
Que geralmente assim distributivo
Tanta prata nos dá liberalmente.
 
Porém, Virgem das Neves, se sois Fonte,
Como enfim nos cantares se descreve,
E se sois sol, suposto o sol se afronte:
 
Esta fonte, Senhora, a vós se deve;
Mas que muito, que estando o sol no monte,
Nos dê no vale derretida a neve.
 
 
 
 
 
 
 
Chora o poeta a morte de hum seo filho, cujo pezar
deo motivo a primeyra obra sacra deste livro.
 
 
Querido Filho meu, ditoso esprito,
Que do corpo as prisões tens desatado,
E por viver no Céu tão descansado,
Me deixaste na terra tão aflito.
 
Tu mais do que teu Pai és erudito,
Muito mais douto, e mais exprimentado,
Pois por ser Anjo em Deus predestinado
Deixaste de homem ser talvez precito.
 
Se de achaque de um Sol, do mal de um dia
Entre um doce suspiro, e brando ronco
De toda a flor acaba a louçania:
 
Que muito, ó Filho, flor de um pau tão bronco
Que acabe a flor na dócil infancia.
E que acabando a flor, dure inda o tronco.
 
 
 
 
 
 
 
O poeta religioso
 
Soneto a Nosso Senhor
 
 
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido
Vos tem a perdoar mais empenhado.
 
Se basta a voz irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
 
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história.
 
Eu sou, Senhor a ovelha desgarrada,
Recobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
 
 
 
 
 
 
 
O poeta satírico
 
Triste Bahia
 
Triste Bahia!
ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi abundante.
 

A ti tricou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e, tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
 
 
 
 
 
 
O poeta lírico
 
À mesma d. Ângela
 
Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:
 

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,
De verde pé, da rama fluorescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não idolatrara?
 

Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
 

Mas vejo, que por bela, e por galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
 
 
 
 
 
 
O poeta erótico
 
Descarto-me da tronga, que me chupa,
Corro por um conchego todo o mapa,
O ar da feia me arrebata a capa,
O gadanho da limpa até a garupa.
Busco uma freira, que me desemtupa
A via, que o desuso às vezes tapa,
Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,
Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.
Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
E na hora de ver repleta a tripa,
Darei por quem mo vase toda Europa?
Amigo, quem se alimpa da carepa,
Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,
Ou faz da mão sua cachopa.
 

 
 

 

 

Pesquisa e edição:
( Fonte: Internet )
 

 

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