Gabriel García Márquez
 
 
 
Do Livro **Cem anos de Solidão**  enviaremos um resumo
em partes aos Sábados. 
 Segue abaixo a Parte 5:
 
 
 

Cem Anos de Solidão
Gabriel García Márquez
 
5ª PARTE 

 

 

Como o chofer estava doente, encarregaram-no de levá-las e Meme pôde por fim satisfazer a sua vontade de se sentar junto ao volante para observar de perto o sistema de manejo. Ao contrário do chofer titular, Mauricio Babilonia lhe fez uma demonstração prática. Isso foi na época em que meme começou a frequentar a casa do Sr. Brown e ainda se considerava indigno de damas dirigir um automóvel. De modo que se conformou com a informação teórica e não voltou a ver Mauricio Babilonia por vários meses. Mais tarde haveria de recordar que durante o passeio chamou-lhe a atenção a sua beleza varonil, salvo a brutalidade das mãos, mas depois tinha comentado com Patricia Brown o mal-estar que lhe produzira a sua segurança um pouco altiva. No primeiro sábado em que foi ao cinema com seu pai, voltou a ver Mauricio babilônia com o seu costume de linho, sentado a pouca distância deles, e percebeu que ele se desinteressava do filme para se virar para olhá-la, não tanto para vê-la como para que ela notasse que ele a estava olhando. Meme se aborreceu com a vulgaridade daquele sistema. Finalmente, Mauricio Babilonia se aproximou para cumprimentar Aureliano Segundo e só então Meme soube que se conheciam, porque ele tinha trabalhado na primitiva instalação elétrica de Aureliano Triste e tratava seu pai com uma atitude de subalterno. Essa comprovação aliviou-a do desprazer que lhe causava sua altivez. Não se tinham visto a sós, nem se tinham dito uma palavra diferente do cumprimento, na noite em que sonhou que ele a salvava de um naufrágio e ela não experimentava nenhum sentimento de gratidão e sim de raiva. Era como lhe ter dado uma oportunidade que ele desejava, sendo que Meme queria o contrário, não só com Mauricio Babilonia como também om qualquer outro homem se se interessasse por ela. Por isso ficou tão indignada que depois do sonho, em vez de detestá-lo, teria experimentado uma urgência irresistível de vê-lo. A ansiedade se fez mais intensa no correr da semana e no sábado já era tão premente que teve que fazer um esforço enorme para que Mauricio Babilonia não notasse, ao cumprimenta-la no cinema, que o coração lhe saía pela boca. Ofuscada por uma confusa sensação de prazer e raiva, estendeu-lhe a mão pela primeira vez, e só então Mauricio babilônia se permitiu apertá-la. Meme chegou,  numa fração  de segundo, a se arrepender do impulso, mas o arrependimento se transformou imediatamente numa satisfação cruel, ao comprovar que também a mão dele estava suada e gelada. Nessa noite, compreendeu que não teria um instante de sossego enquanto não demonstrasse a Mauricio babilônia quão vã era a sua aspiração, e passou a semana voejando em torno dessa ansiedade. Recorreu a toda espécie de artimanhas inúteis para que Patricia Brown a levasse para buscar o automóvel. Por último, valeu-se do cabelo-de-fogo norte-americano, que por essa época estava passando as férias em Macondo e, com o pretexto de conhecer os novos modelos de automóveis, fez-se levar às oficinas. Desde o momento em que o viu, Meme deixou de enganar a si mesma, e compreendeu que o que acontecia na realidade era que não podia mais suportar o desejo de estar a sós com Mauricio Babilonia e se indignou com a certeza de que este compreendera isso ao vê-la chegar.

-Vim ver os novos modelos ? disse Meme.

-É um bom pretexto ? disse ele.

Meme percebeu que estava se queimando na luz da sua altivez e procurou desesperadamente uma maneira de humilhá-lo. Mas ele não lhe deu tempo. ?Não se assuste?, disse em voz baixa. ?Não é a primeira vez que uma mulher fica louca por um homem?.  Sentiu-se tão desamparada que abandonou a oficina sem ver os novos modelos e passou a noite de extremo a extremo rolando na cama e chorando de indignação. O cabelo-de-fogo norte-americano, que realmente começava a lhe interessar, pareceu-lhe um bebê de fraldas. Foi então que entendeu as borboletas amarelas que precediam as aparições de Mauricio Babilonia. Vira-as antes, sobretudo na oficina mecânica, e pensara que estavam fascinadas pelo cheiro da pintura. Alguma vez tê-las-ia sentido voejar sobre a sua cabeça na penumbra do cinema. Mas quando Mauricio Babilonia começou a persegui-la como um espectro que só ela identificava na multidão, compreendeu quea s borboletas amarelas tinham alguma coisa que ver com ele. Mauricio Babilonia estava sempre na plateia dos concertos, no cinema, na missa, e ela não necessitava vê-lo para descobri-lo, porque o indicavam as borboletas. Uma vez, Aureliano Segundo se impacientou tanto com o sufocante movimento de asas que ela sentiu o impulso de confiar-lhe o seu segredo como lhe havia prometido, mas o instinto lhe indicou que desta vez ele não ia rir como de costume: ?Que diria a sua mãe se soubesse?. Certa manhã, enquanto podavam as rosas, Fernanda lançou um grito de espanto e quis tirar Meme do lugar em que estava e que era o mesmo lugar do jardim de onde Remedios, a bela, subira aos céus. Tivera por um instante a impressão de que o milagre ia se repetir na sua filha, porque tinha-se perturbado com um repentino movimento de asas. Eram as borboletas. Meme as viu como se tivessem nascido de repente na luz e seu coração deu um baque. Nesse momento, entrava Mauricio Babilonia com um pacote que, segundo disse, era um presente de Patricia Brown. Meme engoliu o rubor, assimilou a perturbação, e até conseguiu um sorriso natural para pedir-lhe o favor de coloca-lo no parapeito, porque tinha os dedos sujos da terra. A única coisa que Fernanda notou no homem que poucos meses depois haveria de expulsar ed casa sem lembrar de que o tivesse visto alguma vez foi a textura biliosa da pele.

-É um homem muito esquisito ? disse Fernanda. ? Está escrito na testa que vai morrer.

Meme pensou que sua mãe tinha ficado impressionada com as borboletas. Quando acabaram de podar o roseiral, lavou as mãos e levou o pacote para o quarto para abri-lo. Era uma espécie de brinquedo chinês, composto de cinco caixas concêntricas e, na última, um cartão laboriosamente desenhado por alguém que mal sabia escrever:  A gente se vê sábado no cinema. Meme sentiu o terror tardio de que a caixa tivesse estado tanto tempo no parapeito, ao alcance da curiosidade de Fernanda, e, embora a lisonjeasse a audácia e o engenho de Mauricio Babilonia, comoveu-a a sua ingenuidade de esperar que ela não faltasse ao encontro. Meme já sabia que Aureliano Segundo tinha um compromisso no sábado à noite. Entretanto, o fogo da ansiedade abrasou-a de tal modo no correr da semana que no sábado convenceu o pai a deixá-la sozinha no cinema e voltar para buscá-la no final da sessão. Uma borboleta noturna voejou sobre a sua cabeça enquanto as luzes estiveram acesas. E então aconteceu. Quando as luzes se apagaram, Mauricio Babilonia se sentou do seu lado. Meme se sentiu debater num pântano de desespero, do qual só poderia ser resgatada, como acontecera no sonho, por aquele homem cheirando a óleo de motor que mal distinguia na penumbra.

-Se você não tivesse vindo ? ele disse ? não teria me visto nunca mais.

Meme sentiu o peso da sua mão no joelho e soube que ambos chegavam naquele instante ao outro lado do desamparo.

-O que me choca em você ? sorriu ? é que sempre diz exatamente o que não devia dizer.

Ficou louca por ele. Perdeu o sono e o apetite e se aprofundou tão profundamente na solidão que até o pai se transformou num estorvo para ela. Elaborou um intrincado nó de compromissos falsos para desorientar Fernanda, perdeu de vista as amigas, pulou por cima dos convencionalismos para encontrar-se com Mauricio Babilonia a qualquer hora e em qualquer parte. No princípio, incomodava-a a sua rudeza. Na primeira vez em que se viram a sós, nos prados desertos atrás da oficina mecânica, ele a arrastou sem misericórdia a um estado animal que a deixou extenuada. Demorou algum tempo para se dar conta de que também aquela era uma ofrma da ternura e foi então que perdeu o sossego e não vivia senão para ele, transtornada pela ansiedade de se fundir no seu entorpecedor bafo de óleo esfregado com água sanitária. Pouco antes da morte de Amaranta, tropeçou de repente com um espaço de lucidez dentro da loucura e tremeu diante da incerteza do futuro. Então ouviu falar de uma mulher que fazia prognósticos pelas cartas e foi vista-la em segredo. Era Pilar Ternera. Desde que esta a viu entrar, soube dos recônditos motivos de Meme. ?Sente-se?, disse-lhe. ?Eu não preciso do baralho para averiguar o futuro de um Buendía?. Meme ignorava, e ignorou sempre, que aquela pitonisa centenária era sua bisavó. Tamouco teria acreditado, depois do agressivo realismo com que ela lhe revelou que a ansiedade do namoro não encontrava repouso a não ser na cama. Era o mesmo ponto de vista de Mauricio Babilonia, mas Meme se recusava a lhe dar crédito, pois no fundo supunha que ele estava inspirado em algum mau critério de operário braçal. Ela pensava então que uma forma de amor derrotava a outra, porque fazia parte da índole dos homens repudiar a fome uma vez satisfeito o apetite. Pilar Ternera não só dissipou o erro como também lhe ofereceu a velha cama de lona onde ela concebera Arcadio, o avô de Meme, e onde concebera depois a Aureliano José. Ensinou-lhe, além disso, como prevenir a concepção indesejável mediante a vaporização de cataplasmas de mostarda e deu receitas de beberagens que em casos de contratempo faziam expulsar ?até os remorsos de consciência?. Aquela entrevista infundiu em Meme o mesmo sentimento de valentia que experimentara na tarde da bebedeira. A morte de Amarante, entretanto, obrigou-a a adiar a decisão. Enquanto duraram  as nove noites, ela não se afastou um só instante de Mauricio Babilonia, que andava confundido com a multidão que invadira a casa. Vieram logo o luto prolongado e o enclausuramento obrigatório e se separaram por algum tempo. Foram dias de tanta agitação interior, de tanta ansiedade irreprimível e tantos desejos reprimidos, que na primeira tarde em que Meme conseguiu sair foi diretamente à casa de Pilar Ternera. Entregou-se a Mauricio Babilonia sem resistência, sem pudor, sem formalismos e com uma vocação tão fluida e uma intuição tão sábia que um homem mais desconfiado que o seu poderia confundir com uma requintada experiência. Amaram-se duas vezes por semana durante mais de três meses, protegidos pela cumplicidade inocente de Aureliano Segundo, que acreditava sem malícia as meias-liberdades da filha, só para vê-la liberada da rigidez da mãe. Na noite em que Fernanda os surpreendeu no cinema, Aureliano Segundo se sentiu angustiado pelo peso da consciência e visitou Meme no quarto onde a trancara Fernanda, confiando em que ela se desafogaria com as confidências que lhe estava devendo. Mas Meme se negou a tudo. Estava tão segura de si mesma, tão aferrada à sua solidão, que Aureliano Segundo teve a impressão de que já não existia nenhum vínculo entre eles, que a camaradagem e a cumplicidade não eram mais do que uma ilusão do passado. Pensou em falar com Mauricio Babilonia, acreditando que a sua autoridade de antigo patrão fá-lo-ia desistir dos seus propósitos, mas Petra Cotes convenceu-o de que aquilo era um assunto de mulher, de modo que ficou flutuando num limbo de indecisão, e mal sustentado pela esperança de que a clausura terminasse com as angústias da filha.

 

 Continua.

 

 

 

Pesquisa e edição:

( Fontes: Internet )
 

 

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