Gabriel García Márquez
 
 
 
Do Livro **Cem anos de Solidão**  enviaremos um resumo
em partes. 
 Segue abaixo a Parte 4:
 
 
 

Cem Anos de Solidão
Gabriel García Márquez
 
4ª PARTE 
 
 
 

Desde a tarde, porém, em que chamou os meninos para que o ajudassem a desempacotar as coisas do laboratório, dedicou-lhes as suas melhores horas. No quartinho separado, cujas paredes se foram enchendo pouco a pouco de mapas inverosímeis e gráficos fabulosos, ensinou-os a ler e escrever e a fazer contas, e falou das maravilhas do mundo não só até onde chegavam os seus conhecimentos, mas forçando a extremos incríveis os limites da sua imaginação. Foi assim que os meninos acabaram por aprender que no extremo meridional da África havia homens tão inteligentes e pacíficos que o seu único entretenimento era sentar para pensar, e que era possível atravessar a pé o mar Egeu pulando de ilha em ilha até o porto de Salónica. Aquelas alucinantes sessões ficaram de tal modo impressas na memória dos meninos, que muitos anos mais tarde, um segundo antes de que o oficial dos exércitos regulares desse a ordem de fogo ao pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía tornou a viver a suave tarde de Março em que seu pai interrompeu a lição de Física e ficou fascinado, com a mão no ar e os olhos imóveis, ouvindo a distância os pífaros e tambores e guizos dos ciganos que uma vez mais chegavam à aldeia, apregoando a última e assombrosa descoberta dos sábios de Mênfis.
 
Eram ciganos novos. Homens e mulheres jovens que só conheciam a sua própria língua, exemplares formosos de pele oleosa e mãos inteligentes, cujas danças e músicas semearam nas ruas um pânico de alvoroçada alegria, com as suas araras pintadas de todas as cores que recitavam romanças italianas, e a galinha que punha uma centena de ovos de ouro ao som do pandeiro, e o macaco amestrado que adivinhava o pensamento, e a máquina múltipla que servia ao mesmo tempo para pregar botões e baixar a febre, e o aparelho para esquecer as más recordações, e o emplastro para perder o tempo, e mil outras invenções tão engenhosas e insólitas, que José Arcadio Buendía gostaria de inventar a máquina da memória para poder se lembrar de todas. Num instante transformaram a aldeia. Os habitantes de Macondo se encontraram de repente perdidos nas suas próprias ruas, aturdidos pela feira multitudinária.
 
Levando um garoto em cada mão, para não perdê-los no tumulto, tropeçando com saltimbancos de dentes encouraçados de ouro e malabaristas de seis braços, sufocado pelo confuso hálito de esterco e sândalo que exalava a multidão, José Arcadio Buendia andava como um louco procurando Melquíades por todas as partes, para que lhe revelasse os infinitos segredos daquele pesadelo fabuloso. Dirigiu-se a vários ciganos que não entenderam a sua língua.
 
Por fim chegou ao lugar onde Melquíades costumava plantar a sua tenda e encontrou um armênio taciturno que anunciava em castelhano um xarope para se fazer invisível. Tinha tomado de um gole uma taça da substância ambarina, quando José Arcadio Buendía abriu passagem aos empurrões por entre o grupo absorto que presenciava o espetáculo e conseguiu fazer a pergunta. O cigano o envolveu no clima atônito do seu olhar, antes de se transformar numa poça de alcatrão fedorento e fumegante sobre a qual ficou boiando a ressonância de sua resposta: "Melquíades morreu." Aturdido pela notícia, José Arcadio Buendía permaneceu imóvel, tratando de vencer a aflição, até que o grupo se dispersou, reclamando por outros artifícios, e a poça do armênio taciturno se evaporou completamente.
 
Mais tarde, outros ciganos lhe confirmaram que na verdade Melquíades tinha sucumbido às febres, nas dunas de Cingapura, e o seu corpo tinha sido jogado no lugar mais profundo do mar de Java. Os meninos não se interessaram pela notícia. Teimavam para que seu pai os levasse para conhecer a portentosa novidade dos sábios de Mênfis, anunciada na entrada de uma tenda que, segundo diziam, pertenceu ao Rei Salomão. Tanto insistiram que José Arcadio Buendía pagou os trinta reais e os conduziu até o centro da barraca, onde havia um gigante de torso peludo e cabeça raspada, com um anel de cobre no nariz e uma pesada corrente de ferro no tornozelo, vigiando um cofre de pirata. Ao ser destampado pelo gigante, o cofre deixou escapar um hálito glacial. Dentro havia apenas um enorme bloco transparente, com infinitas agulhas internas nas quais se despedaçava em estrelas de cores a claridade do crepúsculo. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam uma explicação imediata, José Arcadio Buendía atreveu-se a murmurar:
 
- É o maior diamante do mundo.
 
- Não - corrigiu o cigano. - É gelo.
 
José Arcadio Buendía, sem entender, estendeu a mão para o bloco, mas o gigante afastou-a. "Para pegar, mais cinco reais", disse. José Arcadio Buendía pagou, e então pôs a mão sobre o gelo, e a manteve posta por vários minutos, enquanto o coração crescia de medo e de júbilo ao contato do mistério. Sem saber o que dizer, pagou outros dez reais para que os seus filhos vivessem a prodigiosa experiência. O pequeno José Arcadio negou-se a tocá-lo.
 
Aureliano, em compensação, deu um passo para diante, pôs a mão e retirou-a no ato. "Está fervendo", exclamou assustado. Mas o pai não lhe prestou atenção. Embriagado pela evidência do prodígio, naquele momento se esqueceu da frustração das suas empresas delirantes e do corpo de Melquíades abandonado ao apetite das lulas. Pagou outros cinco reais, e com a mão posta no bloco, como que prestando um juramento sobre o texto sagrado, exclamou:
 
- Este é o grande invento do nosso tempo.
 
(*) No original manos de gorrión. Explicação do autor à tradutora: "O importante da imagem é que esse pássaro tem patas de ave de rapina, mas é bom e inofensivo. Melquíades também, por suas mãos, e à primeira vista, podia parecer uma ave de rapina, mas não o era, como se viu mais tarde". (?)

 
******
 
 
Borboletas amarelas
 

?(...) Meme não pôde deixar de pensar nela quando acenderam as luzes do improvisado cenário e começou a segunda parte do programa. Na metade da peça alguém lhe deu a notícia no ouvido e o ato foi suspenso. Quando chegou em casa, Aureliano Segundo teve que abrir caminho aos empurrões por entre a multidão para ver o cadáver da velha donzela, feia e de má cor, com a venda negra na mão e envolta na mortalha primorosa. Estava exposto na sala junto ao caixote do correio.
 
Úrsula não voltou a se levantar depois das nove noites de Amaranta. Santa Sofía de la Piedad tomou conta dela. Levava-lhe a comida no quarto e a água da bilha para que se lavasse e a mantinha a par de quanto se passava em Macondo. Aureliano Segundo a visitava com frequência e lhe levava roupas que ela punha perto da cama, junto com as coisas mais indispensáveis para o viver diário, de modo que em pouco tempo tinha construído para si um mundo ao alcance da mão. Conseguiu despertar um grande afeto na pequena Amaranta Úrsula, que era idêntica a ela, e a quem ensinou a ler. A sua lucidez, a habilidade para se bastar a si mesma faziam pensar que estava naturalmente vencida pelo peso dos cem anos mas, embora fosse evidente que andava mal da vista, ninguém suspeitou que estivesse completamente cega. Dispunha então de tanto tempo e de tanto silêncio interior para vigiar a vida da casa que foi ela a primeira a perceber a calada angústia de Meme.
 
-Venha cá ? disse a ela. ? Agora que estamos sozinhas, confesse a esta pobre velha o que há contigo.
 
Meme fugiu da conversa com um riso entrecortado. Úrsula não insistiu, mas acabou de confirmar as suas suspeitas porque Meme não voltou a visita-la. Sabia que se arrumava mais cedo do que de costume, que não tinha um instante de sossego enquanto esperava a hora de sair à rua, que passava noites inteiras rolando na cama do quarto contíguo e que a atormentava o voejar de uma borboleta. Em certa ocasião, ouviu-a dizer que ia se encontrar com Aureliano Segundo e Úrsula se surpreendeu de que Fernanda fosse tão curta de imaginação que não suspeitasse de nada quando o marido chegou em casa perguntando pela filha. Era evidente demais que Meme andava com assuntos sigilosos, com compromissos urgentes, com ansiedades reprimidas, desde muito antes da noite em que Fernanda alvoroçou a casa porque a tinha encontrado aos beijos com um homem no cinema.
 
A própria Meme andava na época tão ensimesmada que acusou Úrsula de havê-la denunciado. Na realidade, ela se denunciara a si mesma. Há muito tempo que deixava à sua passagem um caudal de pistas que teriam despertado o mais adormecido e, se Fernanda demorara tanto para descobri-las, foi porque  também ela estava obscurecida pelas suas relações secretas com os médicos invisíveis. Mesmo assim acabou por perceber os profundos silêncios, os sobressaltos intempestivos, as alternativas de humor e as contradições da filha. Empenhou-se numa vigilância dissimulada, mas implacável. Deixou-a estar com as suas amigas de sempre, ajudou-a a se vestir para as festas de sábado e jamais lhe fez uma pergunta impertinente que pudesse alertá-la. Tinha já muitas provas de que Meme fazia coisas diferentes das que anunciava e, no entanto, não deixou vislumbrar as suas suspeitas na espera da ocasião decisiva. Certa noite, Meme avisou que ia ao cinema com o pai. Pouco depois, Fernanda ouviu os foguetes da farra e o inconfundível acordeão de Aureliano Segundo no rumo da casa de Petra Cotes.  Então se vestiu, entrou no cinema e, na penumbra das cadeiras, reconheceu a filha. A perturbadora emoção do acerto lhe impediu de ver o homem que a estava beijando, mas chegou a perceber a sua voz trêmula no meio dos assovios e das gargalhadas ensurdecedoras do público. ?Sinto muito, amor?, ouviu-o dizer, e tirou Meme da sala sem lhe dizer uma palavra e submeteu-a à vergonha de leva-la pela barulhenta Rua dos Turcos e trancou-a à chave no quarto.
 
No dia seguinte, às seis da tarde, Fernanda reconheceu a voz do homem que foi visita-la. Era jovem, citrino, com uns olhos escuros e melancólicos que não a teriam surpreendido tanto se tivesse conhecido os ciganos e um ar de sonho que a qualquer mulher de coração menos rígido teria bastado para entender os motivos da filha. Vestia um linho muito usado, sapatos branco-zinco defendidos desesperadamente por solas superpostas, e trazia na mão um chapéu de palhinha comprado no sábado anterior. Em toda a sua vida nunca estivera nem estaria mais assustado do que naquele momento, mas tinha uma dignidade e um domínio que o punham a salvo da humilhação e uma excelência legítima que só fracassava nas mãos calosas e nas unhas lascadas pelo trabalho rude. A Fernanda, entretanto, bastou vê-lo uma vez para intuir a sua condição de trabalhador braçal. Percebeu que usava a sua única roupa de domingo e que debaixo da camisa tinha a pele carcomida pela sarna da companhia bananeira. Não permitiu que falasse. Não permitiu sequer que ele passasse da porta, que um momento depois teve de fechar, porque a casa estava cheia de borboletas amarelas.
 
-Vá embora ? disse a ele. ? Não tem nada que fazer no meio de gente decente.
 
Chama-se Mauricio Babilonia. Tinha nascido e crescido em Macondo e era aprendiz de mecânico nas oficinas da companhia bananeira. Meme o conhecera por acaso, numa tarde em que fora com Patricia Brown buscar o automóvel para dar um passeio pelas plantações.

 
  Continua.
 

 

 

Pesquisa e edição:

( Fontes: Internet )
 

 

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