Fernando Gonçalves Namora
 
 

Fernando Gonçalves Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, nos arredores de Coimbra, em 15 de Abril de 1919. Faleceu em  Lisboa, em 31 de Janeiro de 1989.
 
 
 
Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, exerceu carreira na sua terra natal e nas regiões da Beira Baixa e Alentejo.  Fernando Namora foi um importante escritor e poeta português.     A sua actividade literária começou em 1932, quando, (então) aluno do  ensino secundário, em  Lisboa. Durante os dois anos que ali permance, redige e ilustra um jornal (manuscrito) do Liceu que frequentava. Em 1935, quando estudante em Coimbra,  surge como director do Jornal académico Alvorada. Durante esse período escreve a sua primeira colectânea literária; "Almas sem Rumo".
 
Corria o ano de 1938, quando escreveu o seu primeiro volume; "Relevos".No mesmo ano, publicou o romance "As Sete Partidas do Mundo", que obteve o Prémio Almeida Garrett. Começava a esboçar-se a identificação do seu estilo com o neo-realismo, mais patente três anos depois, com a "Poesia de Terra", no Novo Cancioneiro.
 
A análise social marca os seus textos, bem como as observações naturalistas e existencialistas. Dotado de uma profunda capacidade de análise psicológica, ligada a uma linguagem de grande carga poética e emocional, Fernando namora escreveu - para além de obras poéticas e romances - contos, memórias e impressões de viagem.
 
Entre os títulos que publicou contam-se os volumes de prosa "Fogo na Noite Escura" (1943), "Casa da Malta" (1945), "As Minas de S. Francisco" (1946), "Retalhos da Vida de um Médico(*)" (1949 e 1963), "A Noite e a Madrugada" (1950), "O Trigo e o Joio" (1954), "O Homem Disfarçado" (1957), "Cidade Solitária" (1959), "Domingo à Tarde(*)" (1961)- Prémio José Lins do Rego, "Os Clandestinos" (1972) e "Rio Triste" (1982).
 
Além dos já mencionados, publicou em poesia Mar de Sargaços (1940) e Marketing (1969). A sua produção poética conheceu uma antologia datada de 1959; "As Frias Madrugadas."

(*) - Os seus romances "Domingo à Tarde" e "Retalhos da Vida de um Médico", foram adaptados ao cinema e à televisão, dando origem a filmes e séries que se tornaram populares.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A sua poesia:
 
 
 

Intervalo
 

Quando nasci, em rendas e afagos
Os rouxinóis vinham com a aurora esperar a Primavera
Mas o seu canto
Emudeceu de espanto
Como se o meu choro os degolasse.
Minha mãe, nessa noite,
Sonhara com o aceno húmido de um lenço
Branco
Num dia de partida.
Ó Terra
eu cheguei e tu ficaste ainda.
Porque não estoiraste se foste iludida.
 
 
 
 
Balada de Sempre
 

Espero a tua vinda,
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
debruço - me sobre a noite
inventando crescentes e luares.
Espero o momento da chegada
com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.
Rasgarás nuvens, estradas,
abrindo clareiras
nas sebes e nas ciladas.
Saltarás por cima de mares,
de planícies e relevos
- ânsia alada
no meu desejo imaginada
Mas
enquanto deixo a janela aberta
para entrares
o mar
aí além,
lambe-me os braços hirtos, braços verdes
algas de sonho
- e desenha ironias na areia molhada.
 
 
 
 
 

Profecia
 

Nem me disseram ainda
para o que vim.
Se logro ou verdade
Se filho amado ou rejeitado.
mas sei
que quando cheguei
os meus olhos viram tudo
e tontos de gula ou espanto
renegaram tudo
e no meu sangue veias se abriram
noutro sangue....
A ele obedeço,
sempre,
a esse incitamento mudo.
Também sei
que hei-de perecer, exangue,
de excesso de desejar;
mas sinto
sempre,
que não posso recuar.
 
 
 
 

Intimidade
 

Que ninguém hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao mundo.
 
Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.
 
 
 
 

Cantar D'Amigo
 

Estrangeiro! talharam-nos em redor fossos, limites
e o cerco das fronteiras.
Estrangeiro! Ninguém entendeu, e nem tu, estrangeiro,
que entre nós não existem cordilheiras.
 
Ficaste de mãos desastradas, indiferentes,
quando a minha vida roçou a tua vida.
De olhos parados, indiferentes,
quando passei a teu lado.
 
Estrangeiro! Ficou-me esse desperdício de um adeus
que as tuas mãos frias não disseram,
nem os teus olhos vidrados,
nem a tua boca selada,
mas que eu pressenti, como alguém á beira de um cais,
ao ver sair barcos com gente que nos é estranha,
agitando lenços estranhos
alguém que sofre por nada.
Iludimos a vida, amigo!
E como para ultrapassar as fronteiras
os fossos,
as ironias
bastaria um só olhar!...
Não, estrangeiro! Vamos misturar o sangue dos rios
o abismo dos mapas
fazer qualquer coisa! misturar, misturar.
 
 
 
 
 
 
 
O prosador - o seu estilo
 
 
 
Veja-se a beleza da linguagem poética da narrativa:
 
(...)
Sou feliz quando te aproximas, me dás o braço e caminhamos juntos, como dois irmãos. O mundo então sorri para nós e nós sorrimos para ele; os pássaros cantam para nós e nós escutamos. Sentamo-nos e escutamos os pássaros que cantam para nós. Só para nós. Só para nós... e então somos os únicos... não existirão más línguas, porque o nosso amor é superior a isso tudo; não haverá dor, porque o amor ultrapassa isso. Não haverá solidão, porque nos acompanhamos mutuamente.
Caminhamos pela rua. O rio murmura, as árvores oferecem-nos a sombra e nós acolhemos. E de mãos dadas vamos para a sombra das árvores. Que bom sentir tua companhia, saber-te perto! tudo em nós é harmonia. E sorrimos. Coisa mais bonita que um sorriso haverá? coisa mais bonita que esta amizade haverá? Não. Para mim (para nós) não. Porque nós somos únicos.
E então desejamos ardentemente que todos estes obstáculos, como a inveja, o preconceito passem. Porque te amo. Porque me amas. E então digo: sou feliz quando te amo. Sou feliz quando tudo está em harmonia. E quando me apertas nos teus braços e dizes com toda a sinceridade: - gosto de ti.
Não existirá mentira. Tudo em nós será verdade.Sou feliz quando imagino que isto vai acontecer. Que este episódio é verdadeiro. Sou feliz porque apesar de tudo posso sonhar, posso imaginar. E criar meu mundo sem obstáculos.(...)
 
(in: "Retalhos da vida de um médico" - o seu < best seller > )
 
 
 
 
 
 

Um trecho de "Domingo à tarde", um romance de grande intensidade dramática, que aborda a 'miséria humana'.
"O escritor lida com os sentimentos mais íntimos das personagens que povoam esse ambiente, impregnado de dor, de angústia, de esperança e de desesperança." (panorama) :
 

(...)
 ?A minha insociabilidade seria, pois, uma estratégia. De qualquer dos modos, fui conquistando regalias de exceção, que me permitiam escolher os doentes, espantando do hospital as tais baronesas histéricas e desocupadas, vindas ali se exercitar com as intimidades da consulta, os neuróticos, os maricas e toda essa legião de exploradores dos serviços de assistência médica gratuita, compadres ou compadres dos nossos amigos, para quem o nosso trabalho era, ao fim e ao cabo, uma mercê que, por intermédio deles, da sua sacrificada generosidade, nos fosse concedida. Ficavam-me os pobres, submissos e aterrados, os que pressentiam o desfecho como um castigo misterioso, telúrico, de que não se podia fugir, e me procuravam quase sempre apenas para ouvir uma palavra de conforto que em toda a parte lhes era negada, uma mentira mais, e pareciam rogar desculpas do seu próprio sofrimento. Esperavam de mim, cúmplice da doença, da morte ou de suas ilusões, não as drogas, em que já nem acreditavam, mas uma espécie ambígua de solidariedade que os fizesse sentir apoiados até por quem estivesse ao lado do executor no minuto final; ou mesmo a solidariedade do carrasco e da vítima quando o mundo se fecha sobre os dois. Mentiras era o que me pediam, sempre mentiras, logros mendigados de mão estendida.
 
Sendo eu o tal sujeito bruto, de palavras aceradas, parecia estranho que eles me escolhessem entre os demais coveiros, embora nunca os tivesse seduzido com a minha compaixão. Vinha, no entanto, eles e as famílias, estabelecendo uma pertinaz e surda ronda a todos os meus passos. Eram cavalos viciados no chicote. Cavalos que mantinham de pé, por tenacidade e não por orgulho, a sua agonia. Talvez a minha dureza lhes soubesse a verdade. Talvez a preferissem às palavras embuçadas, aos afagos corrompidos, que deixam o travo duma fraude maior ainda?.(...)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Ser feliz é, afinal, não esperar muito da felicidade, ser feliz é ser simples, desambicioso, é saber dosear as aspirações até àquela medida que põe o que se deseja ao nosso alcance. Pegando de novo em Tolstoi, que vem sendo em mim um padrão tutelar, lembremos de novo um dos seus heróis, o príncipe Pedro Bezoukhov (do romance 'Guerra e Paz'). As circunstâncias fizeram-no conviver no cativeiro com um símbolo da sabedoria popular, um tal Karataiev. Pois esse companheirismo desinteressado e genuíno, esse encontro com a vida crua mas desmistificadora, não só modificaram o príncipe Pedro como lhe revelaram o que ele precisava de saber para atingir o que nós, pobres humanos, debalde perseguimos: a coerência, a pacificação interior, que são correctivos da desventura.
 
Tolstoi salienta-nos que Pedro, após essa vivência, apreendera, não pela razão mas por todo o seu ser, que o homem nasceu para a felicidade e que todo o mal provém não da privação mas do supérfluo, e que, enfim, não há grandeza onde não haja verdade e desapego pelo efémero. Isto, aliás, nos é repetido por outra figura de Tolstoi, a princesa Maria, ao acautelar-nos com esta síntese desoladora: «Todos lutam, sofrem e se angustiam, todos corrompem a alma para atingir bens fugazes»."
 
( Fernando Namora in: "Sentados na Relva" )
 
 
 

 

 

 

 

Pesquisa e edição:

( Fontes: Internet )
 

 

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