Manuel Maria Barbosa du Bocage

( 1765 - 1805 )


Bocage; uma vez mais, e sempre ...porque estou ( ainda que só parcialmente ) de acordo com o que sobre ele disse Almeida Garrett: "o soneto português nasceu com ele e com ele morreu".  E totalmente em sintonia com o que Olavo Bilac afirmou: "Em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage e depois dele decaíu. Portugal teve talvez poetas mais fortes, de surto mais alto, de mais fecunda imaginação, mas nenhum o excedeu nem o igualou no brilho da expressão".
 

Bocage e as Ninfas - 1929

Óleo de Fernando dos Santos (Setúbal, 14 de Julho de 1892 ? Lisboa, 14 de Abril de 1965)
 foi um pintor e autor teatral português - que pintou Bocage.

Bocage e as Ninfas na Prisão - de Fernando dos Santos  - 1929

 

Sonetos de Bocage

 

     Da obra:  O Delírio Amoroso e Outros Poemas

 

Parte 1

 

I - Proposição das ritmas do poeta

Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade e não louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros,lágrimas, e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração dos seus favores;

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência

 
 

II - O Autor aos seus versos

 
Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza, e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:
 
Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:
 
Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania:
 
Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco .
 
 
 
 
III
 
De suspirar em vão já fatigado,
Dando trégua a meus males eu dormia;
Eis que junto de mim sonhei que via
a Morte o gesto lívido, e mirrado:
 
Curva fouce no punho descarnado
Sustentava a cruel, e me dizia:
"eu venho terminar tua agonia;
morre, não peneis mais, oh desgraçado! "
 
quis ferir- me, e de Amor foi atalhada,
que armado de cruentos passadores
aparte, e lhe diz com voz irada:
 
"Emprega noutro objeto os teus rigores;
que esta vida infeliz está guardada
para vítima só de meus furores."
 
 
 
 IV

Contra a Ingratidão de Nise
 
 
Raios não peço ao Criador do mundo,
Tormentas não suplico ao rei dos mares,
Vulcões à terra, furacões aos ares,
Negros monstros ao báratro profundo:
 
Não rogo ao deus do Amor, que furibundo
Te arremesse do pé de seus altares;
Ou que a peste mortal voe a teus lares,
E murche o teu semblante rubicundo:
 
Nada implore em teu dano, ainda que os laços
Urdidos pela fé, com vil mudança
Fizeste, ingrata Nise, em mil pedaços:
 
Não quero outro despique, outra vingança,
Mais que ver-re em poder de indignos braços,
E dizer quem te perde, e quem te alcança
 
 
 
V

Insônia
 
 
Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a noite escura e feia;
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
 
Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorgeia,
Nem pia o mocho, às trevas costumado:
 
Só eu velo, só eu, pedindo à sorte
Que o fio, com que está minh'alma presa
À vil matéria lânguida, me corte:
 
Consola-me este horror, esta tristeza;
Porque a meus olhos se afigura a morte
No silêncio total da Natureza.
 
 
 
VI
 
Mavorte, porque em pérfida cilada
O cruel moço alígeto o ferira,
Não faz caso da mãe, que chora e brada,
Quer punir o traidor, que lhe fugira:
 
Na sinistra o pavês, na dextra a espada,
Nos ígneos olhos fuzilante a ira,
Pule à negra carroça ensangüentada,
Que Belona infernal côas Fúrias tira:
 
Assim parte, assim voa; eis que vê posto
No colo de Marília o deus alado,
No colo aonde tem mimoso encosto:
 
Já Marte arroja as armas, e aplacado
Diz, inclinando o formidável rosto:
"Valha-te, Amor, esse lugar sagrado ! ".
 
 
 
VII
 
Marília, nos teus olhos buliçosos
Os Amores gentis seu facho acendem;
A teus lábios voando os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos:
 
Teus cabelos subtis e luminosos
Mil vistas cegam, mil vontades prendem:
E em arte de Minerva se não rendem
Teus alvos curtos dedos melindrosos:
 
Resiste em teus costumes a candura,
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teus risos se mistura:
 
És dos céus o composto mais brilhante;
Deram-se as mãos Virtude e Formosura
Para criar tua alma e teu semblante.
 
 
 
VIII
 

Oh, tranças, de que Amor prisões me tece,
Oh, mãos de neve, que regeis meu fado !
Oh tesouro ! oh mistério ! oh par sagrado ,
Onde o menino alígero adormece !
 
Oh ledos olhos, cuja luz parece
Tênue raio de sol ! oh gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse !
 
Oh ! lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira !
 
Oh perfeições ! oh dons encantadores !
De quem sois ?...Sois de Vênus ? - é mentira
Sois de Marília, sois de meus amores
 

 
 
 
 
                          
                                   Detalhe do Monumento de Bocage  -  Praça Bocage - Setúbal
 
 
 
 
Nota de cem escudos - 24/02/1981
 
 
 
 
Bocage no palacete do Conde de Carcavelos - Braga, Portugal
 
 
 
 
Retrato de Bocage por Joaquim Pedro de Souza
Gravado em Buril e água-forte.
 
 

 

 

Pesquisa e edição:

( Fontes:   Devaneios & Embriaguez - Internet )
 

 

Tube Still_Life_110

Wav:Songs_From_A_Secret_Garden

 

 

 

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