ARY DOS SANTOS

( 1936-1984)

 

O Poeta português Ary dos Santos, de seu nome completo José Carlos Ary dos Santos, já nos deixou há trinta anos mas, ainda hoje, ler a sua poesia me causa arrepios.
Hoje quero partilhar convosco, meus amigos, alguns dos seus poemas.
Como sempre, desejo-vos Boa leitura !  E. S.

 


?Gostava de ser tratado como «poeta da Revolução de Abril» e de facto foi-o. Ary dos Santos, poeta, letrista de canções e criativo publicitário, entrou para a história da literatura portuguesa como aquele que registou os feitos do 25 de Abril e incentivou todo o processo revolucionário que se seguiu. Com grandeza, com perseverança, com determinação, com revolta, com coragem, com firmeza, com arrojo.?

Caricatura

Além das mais de 600 canções que escreveu, Ary dos Santos publicou oito livros de poesia em vida.
«A Liturgia do Sangue» foi o primeiro e é datado de 1963.Após a sua morte, foi ainda publicada a segunda edição da antologia da sua obra, «Vinte Anos de Poesia».

 

Dulce Pontes cantando Ary dos Santos ( clic no Link abaixo )

http://youtu.be/cV2HU6Nr5-M

 

 


Ary dos Santos, o poeta de Lisboa
que encantou Portugal nos anos 60 e 70

 

A sua poesia

 

Contagem Decrescente

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

 

 

Soneto de Inês 


Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês! Inês! Rainha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês! Inês! Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês! Inês! Inês de Portugal.


 

Na mesa do Santo Ofício

 Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.


Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.

 

 

O guarda chuva

Chovem protestos palavras
dramaturgos e profetas:
a chuva dos manifestos
fecunda a horta das letras.
Chovem bátegas de sílabas
chovem doutrinas e tretas
chovem ismos algarismos
que numeram os poetas.

Chovem ciências ocultas
chovem ciências concretas
e nascem alfaces cultas
para poemas-dietas.
Chovem tiros de espingarda
chovem pragas e lamentos
e cresce a couve lombarda
nos quintais do sentimento.
Chove granizo política
dum céu carranca cinzento
constipa-se logo a crítica
que se mete para dentro.
Chovem as poetisas símias
da menina flor dos olhos
surgem canteiros de zínias
salpicados de repolhos.

Chovem as mulheres a dias
com os sonetos nas curvas
lavadeiras de poesia
em barrela de águas turvas.
Chove uma chuva de pedra
chovem astros em cardume
há uma erva que medra
com este estrume de lume.

Medra a erva do talento
medra a baga do azedume
não há erva que não medre
nas estufas do ciúme.
Chove uma chuva miúda
que é chuva de molhatolos
sai o poema taluda
e saem rimas nos bolos.

Para o poeta que chova
por dentro,em razão inversa,
forçoso é ter guarda-chuva
contra a palavra perversa
que foi um chão que deu uva
e hoje só dá conversa.

 

 

Minha Mãe Que Não Tenho

Minha mãe que não tenho   meu lençol
de linho de carinho  de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância.

Ai água que não bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que eu não oiço  ai mãe  ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste? De qual Ganges?
De qual pai tão distante me pariste
Minha mãe  minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho   minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila  virgem  buda  corça
ou apenas um mundo em que não entro?

Minha mãe que não tenho   inventa-me primeiro:
constrói a casa  a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo  que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

 

 

Cruz

Ter asas e pesarem-me os braços,
Ter sonhos e morrer nesta ansiedade;
Vivermos nos azuis e nos espaços,
Caindo nos abismos de maldade;

Sabermos que envenenam aos pedaços
Nosso anseio de paz e de bondade,
E que espiam de noite os nossos passos,
Fugindo-nos, depois, na claridade;

Sofrermos um inferno em cada hora
Tendo a alma fechada, incompreendida,
Eternamente à espera duma aurora...

Não vejamos por isso mal algum,
Que o Senhor Deus quando nos deu a vida,
Deu-a em forma de cruz a cada um.

 

 

A Cidade É Um Chão De Palavras Pisadas


a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há. 
  

 

 

Ecce Homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.
Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.
Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,
Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

 

 

Plenitude

Encontrei afinal o meu caminho.
Ando louco de azul, ébrio de terra,
Como as aves que vão de ninho em ninho,
Sem saber se no mundo há paz ou guerra.

A minha alma mais rubra do que o vinho,
 - Beijo de fogo que a volúpia encerra -
Tem a candura pálida do linho
E a resistência heróica duma serra.

Adoro o Sol em êxtases pagãos
E abençoo o dom da claridade
Que faz vibrar de luz todo o universo.

Trago o luar escondido em minhas mãos,
E esta onda suprema que me invade
E o sangue da minha alma feito verso!

 

 

Meu amor, meu amor

Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

 

 

Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve, breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.


 

Pesquisa e edição:
 
 
 
( Fontes: Internet )

 

 

 

 

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