ARTHUR DA TÁVOLA

1936 - 2008

 


Artur da Távola, pseudônimo de Paulo Alberto Monteiro de Barros, nasceu no Rio de Janeiro,a 3 de janeiro de 1936 e faleceu em 9 de maio de 2008) foi um político, escritor, jornalista brasileiro. Atualmente era apresentador de um programa de música erudita na TV Senado.
 
No que concerne à sua actividade literária, na qualidade de jornalista, atuou como redator e editor em diversas revistas, foi colunista de televisão nos jornais Última Hora, O Globo e O Dia, sendo também diretor da Rádio Roquette Pinto. A sua obra está contida em 23 livros de contos e crônicas.
 
Távola atualmente apresentava o programa "Quem tem medo de música clássica?" na TV Senado, onde demonstrava sua profunda paixão e conhecimento por música clássica e erudita. No encerramento de cada programa, ele mwencionava uma de suas mais célebres frases:
 
? Música é vida interior e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão. ?
 
Seu compositor preferido era Vivaldi, a quem ele dedicou 4 programas especiais apresentando "As quatro estações" em sua versão completa e regida pela Orquestra Filarmônica de Berlim. Também exibiu, com exclusividade, execuções da Orquestra Sinfônica Brasileira no Festival de Gramado nos anos de 2003 a 2007.

 

 

 

 

O pensador, o poeta, o cronista, escrevia assim sobre o amor:
 
 
AMOR MADURO
 
O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas silencioso. Não é menor em extensão.
É mais definido colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações: Presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas:
amplia-se com as usências significantes.
 
O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo.
Mas vive dos problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas
trabalhosas de construir o bem, o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca
e do cheiro  do outro - está a compreensão antecipada, a adivinhação,
o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto,
os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver,
o equilíbrio de carne  e de espírito.
 
O amor maduro é a valorização do melhor do outro
e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu, mesmo tendo ficado para depois,
vive do que fermentou criando dimensões novas
para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.
 
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não percebe, recebe.
Não exige, oferece.
Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.
 
O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão,
basta-se com o todo do pouco. Não precisa e nem quer nada do muito.
Está relacionado com a vida e por isso mesmo é incompleto,
por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.
É o sol de outono: nítido, mas doce.
 
Luminoso, sem ofuscar.
Suave, mas definido.
Discreto, mas certo. 
 


 
 
Um dos seus últimos textos:
 

CARTA A ALGUÉM QUE ESCREVE


 
É fim de tarde. Ao longe e ao perto, brasileiros se unem num basta à violência. Solidário, no silêncio de meu gabinete, creio que escrever a você é também um aceno de paz pois pressinto essa instância como parte abençoada de seu interior.
 
Sabe por que lhe escrevo menos que deveria? É porque fico a esperar o momento adequado, o texto certo, muito a dizer. A sua seriedade e talento, de repente, estavam a exigir de mim uma impostação que (dei-me conta hoje), estava equivocada. Ora, será somente quando eu tiver algo de importante a dizer, é que devo dirigir-me à pessoa que em seu mistério trouxe presença de distinção e luz? Não ! Amizade é para exercitar espontaneidades e dar-se ao delicioso e inconseqüente expediente de simplesmente comunicar-se, sem nada de importante e significativo para dizer. Ao contrário: é o leve agrado do compartir existência e presença de quem se admira e quer bem.
 
Sabe? Esses dias foram de intensidades dolorosas. As últimas semanas no Brasil e no mundo, com a violência e acontecimentos trágicos. Não consigo me esquecer do desespero de pessoas presas em um ônibus incendiado por pura maldade. A morte de um amigo de meio século, espécie de meu irmão mais velho; eu que fui órfão de pai e fiquei filho único pela morte prematura de minha irmã de nome lindo, Eleonora, e olhar de santa, igualmente me povoou a lembrança.
 
Nada disso velho Távola! Busque ser simples, direto e afetuoso com as pessoas com quem você consegue proximidade de alma. É tão grande a incomunicação humana que quando ela se dá, é como comer manga: sim, depois dos quarenta anos, disse eu certa vez em uma crônica, não se pode perder qualquer oportunidade de comer manga. A vida vai encurtando e cada manga deixada de lado não volta. É perda gravíssima. Como a amizade dos afins. Cada afinidade não vivida atenta contra o Bem.
 
Falas hoje em manga, outro dia aludiste ao torresmo, ó lamentável Távola! Será que por tuas restrições alimentares estás a confundir sabores com afetos? Mas afeto e admiração têm sabor. O que diz você, sábia escritora?
 
Enfim, acho que logrei a leveza e a superficialidade deliciosa de quem quer apenas se comunicar e, não, jogar o papel intelectual ou apenas de mais velho, vivido e experiente, que às vezes, por engano, lhe atribuem.
Ainda á uma semana vi milhares de pessoas de branco a fundir o compromisso da paz. Isso sim muda o Brasil e o mundo. Não o ódio que parece sangria desatada. Já na verdade brasileira, só um processo educativo, permanente, igualitário e democrático, reverterá o quadro. Que bom! Estou dispersivo mas espontâneo. Agradeço-o a você.


Estejam Convosco a Graça e a Paz.
 
 

  

 

 
 
As famosas (e humanistas) crónicas de Távola:

 

UM OLHAR DE TERNURA

 

Chego no boteco, a macharia está lá. Supondo vir a ser compreendido e admirado, todo pimpão, apresso-me em proclamar:
 
1- Sabem qual foi o lance mais bonito da Copa?
2- Qual? Qual? Já sei, aquele gol do Argentino de fora da área...
1- Nada disso: tem sido o olhar de ternura do William Bonner para a mulher nas despedidas do Jornal Nacional.
 
 
Levo logo uma vaia. Ninguém me compreendeu. Até de piegas me chamaram, em gozação. Calo-me, então, a ponto de os demais depois até repararem. Invento, então, um compromisso e saio antes do fim do papo. A pensar:
 
Já sei o que os incomodou: a palavra ternura. O mundo anda precisado de ternura e as pessoas têm medo de demonstrar sentimentos. Mas isso é uma bobagem. Ternura ninguém manifesta sem sentir. É necessário que venha de dentro. É o mais leal dos sentimentos. Ternura não se manifesta: sente-se.
 
Um marido distante quilômetros e um tempão longe da mulher que ama, vê-la na madrugada e no frio a trabalhar com afinco, mesmo sendo discreto e polido como o Bonner, sabe que ela é mãe de seus trigêmeos e dia desses até se preocupou em dizer que lá estava frio como a significar: ?Vê lá se vai pegar uma gripe. Amanhã venha mais agasalhada.? D?outra feita, havia uma festa dos brasileiros entrando pela madrugada no Hotel e ela encerrava a sua reportagem do lado de fora. Discreto como sempre, ele quase perguntou: ?Você vai à festa? (Ou vai dormir, deve ter pensado e calou?) ?Nada de festa, ouviu Madame?? Também esta frase não pronunciou. Mas sentiu o ciuminho e o transmitiu subjetivamente.
 
Posso pensar que nós cronistas vemos coisas que os demais não percebem e até desdenham e por vezes eu sei que vivemos nos demais as emoções que estão a pulular dentro de nós. Pode ser. Há tanta artificialidade na televisão que aquilo poderia ser combinado. E concluo: poderia ser, porém não é! O rapaz não é ator. Quando a casa deles foi invadida por bandidos, todos ameaçados, ele foi valente defensor da família. Arriscou a vida. Do lado de lá (Alemanha) a Fátima é ainda mais encabulada, e parece uma menina a disfarçar ao receber uma cantada. Mesmo do marido.
 
Ora, conclui o velho cronista: receber diante de 60 ou 70 milhões de brasileiros uma declaração de amor através do olhar terno e saudoso do marido é a glória para qualquer uma. Sinal de merecimento. Fico com a minha conclusão: os meus amigos de boteco deram-me um fora errado. Piegas uma ova: poeta.
 
Salve o olhar de ternura de um homem por sua mulher, a saudade verdadeira e o cuidado com ela. É sinal de esperança, de amor e de vida.
 
 


 


Algumas de suas poesias:
 
 

SONETO INASCIDO

O poema subjaz.
Insiste sem existir
escapa durante a captura
vive do seu morrer.
 
O poema lateja.
É limbo, é limo,
imperfeição enfrentada,
pecado original.
 
O poema viceja no oculto
engendra-se em diluição
desfaz-se ao apetecer.
 
O poema poreja flor e adaga
e assassina o íncubo sentido.
Existe para não ser.


 
 

 

RETRATO

A dolorosa
e lenta
refeição do velho.
Sopas e papas insepultas
voracidade morta
lassa obrigação de alimentar.
 
Saliva é cuspe
o cuspe é baba
na dócil refeição do velho.
 
A lentidão exasperante
de quem come para não morer
e morrerá porém. Só
 
A dolorosa
e benta
refeição do velho.
 
A carne insulta-lhe
a indecisão do dente,
dor e cansaço no deglutir.
 
Tudo é torpor ou gole
na fome sem sabor
da refeição do velho. 
 
 


AUTISMO

O tédio que não revelo
resvala e vala na taquicardia
do sorriso emoliente
em minha ativa participação.
A morte, amiga de infância,
palpita vida na força do meu viver.
Sou segredos, dons, acasos e órfão,
silenciados em músicas e pickles.
Meu menino, a cirurgia, aquele cão, o não,
a morte do pai e minha irmã
moram anônimos
no quarto e sala da alma.
Falo o que calo
sinto o que guardo
sob outro eu igual ao mim
bem melhor, porém.
Mas autista.
O sexo implícito, o tesão abissal,
a gula mamada,
a timidez flatulenta,
jazem no fundo do meu mar.
Escafandro-me, debalde.
Calo constatações,
blasono brilhos
suicido sonhos,
calafrio-me a colher náuseas
e navego fés esperançosas.
Sou sem teto de onde salto
para o chão do não ser.
Minha blandícia
quem acarinhará?  


 
 


 
QUEM NAMORA

Quem namora agrada a Deus.
Namorar é a forma bonita de viver um amor.
Não namora quem cobra nem quem desconfia.
Namora, quem lê nos olhos e sente no coração
as vontades saborosas do outro.

Namora, quem se embeleza em estado de amor.
Namora, quem suspira, quem não sabe esperar mas espera,
quem se sacode de taquicardia e timidez diante da paixão.
Namora, quem ri por bobagem, quem sente frios e calores
nas horas menos recomendáveis.
 
Não namora quem ofende, quem transforma
a relação num inferno, ainda que por amor.
Amor às vezes entorta, sabia?
E quando acontece, o feito pra bom faz-se ruim.
Não namora quem só fala em si e deseja o parceiro
apenas para a glória do próprio eu.
 
Não namora quem busca a compreensão
para a sua parte ruim.
O invejoso não namora. Tampouco o violento!
Namorados que se prezam têm a sua música.
E não temem se derreter quando ela toca.
Ou, se o namoro acabou, nunca mais dela se esquecem.
 
Namorados que se prezam gostam de beijo, suspiro,
morderem o mesmo pastel, dividir a empada, beber no
mesmo copo. Apreciam ternurinhas que matam de vergonha
fora do namoro ou lhes parecem ridículas nos outros.
 
Por falar em beijo, só namora quem beija de mil maneiras
e sabe cada pedaço e gostinho da boca amada. Beijo de
roçar, beijo fundo, inteirão, os molhados, os de língua,
beijo na testa, no seio, na penugem, beijo livre como o
pensamento, beijo na hora certa e no lugar desejado. Sem
medo nem preconceito. Beijo na face, na nuca e aquele
especial atrás da orelha, no lugar que só ele ou ela
conhece.
 
Namora, quem começa a ver muito mais no mesmo
que sempre viu e jamais reparou. Flores, árvores, a santidade,
o perdão, Deus,
tudo fica mais fácil para quem de verdade sabe o que é namorar.
Por isso só namora quem se descobre dono de um lindo amor.
 
Só namora quem não precisa explicar, quem já começa a
falar pelo fim, quem consegue manifestar com clareza e
facilidade tudo o que fora do namoro é complicado.
 
Namora, quem diz: "Precisamos muito conversar"; e quem é
capaz de perder tempo, muito tempo, com a mais útil das
inutilidades e pensar no ser amado, degustar cada
momento vivido e recordar palavras, fotos e carícias com
uma vontade doida de estourar o tempo e embebedar-se de
flores astrais.
 
Namora, quem fala da infância e da fazenda das férias,
quem aguarda com aflição o telefone tocar e dá um salto
para atendê-lo antes mesmo do primeiro "trim". Namora,
quem namora, quem à toa chora, quem rememora,
quem comemora datas que o outro esqueceu.
Namora, quem é bom, quem gosta da vida,
de nuvem, de rio gelado e parque de diversões.
 
Namora, quem sonha, quem teima, quem vive morrendo de
amor e quem morre vivendo de amar.
 

 

 

 

 

Pesquisa e edição:

( Fontes: Internet )
 

 

Tube Still_Life_110

Wav:Songs_From_A_Secret_Garden

 

 

 

Voltar