Albert Camus
1913 - 1960


Porque é fundamental conhecer Camus

“ A característica do homem absurdo é não acreditar no sentido profundo das coisas. Ele percorre, armazena e queima os rostos calorosos ou maravilhados. O tempo caminha com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo.
O que é, com efeito, o homem absurdo? - Aquele que, sem o negar, nada faz pelo eterno. “
Albert Camus, Premio Nobel da Literatura em 1957
Camus foi um escritor, novelista, ensaísta e filósofo franco-argelino.

 

Um traço marcante da obra de Albert Camus é a intemporalidade, a abordagem filosófica em torno de questões relativas à natureza humana, presentes em qualquer época.
“ (...) Nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico. Galileu, que sustentava uma verdade científica importante, abjurou dela com a maior tranqüilidade assim que viu sua vida em perigo. Em certo sentido, fez bem. Essa verdade não valia o risco da fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. ( O Mito de Sísifo ) “
Pode haver quem diga, e haverá certamente, que Camus não é o mais fácil dos escritores e que nem sempre a mensagem é a mais clara. Pode até dizer-se até que a densidade filosófica das suas obras torna difícil encontrar o seu mais intimo significado e que a sua erudição é contraproducente no panorama literário contemporâneo. O que se não pode dizer é que as suas novelas não são do mais perfeito que foi escrito no século XX ou que as suas alegorias e metáforas não representam a virtude da arte da escrita.


Nota biográfica:

Albert Camus (Mondovi, 7 de novembro de 1913 — Villeblevin, 4 de janeiro de 1960) foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra. Na sua terra natal viveu sob o signo da guerra, fome e miséria, elementos que, aliados ao sol, formam alguns dos pilares que orientaram o desenvolvimento do pensamento do escritor.
De pai francês e mãe de origem espanhola, cedo Camus conhece o gosto amargo da morte. Seu pai morreu em 1914, na batalha do Marne durante Primeira Guerra Mundial. Sua mãe então foi obrigada a mudar-se para Argel, para a casa de sua avó materna, no famoso bairro operário de Belcourt.1

 

ARGEL - cidade da juventude de Camus

 

A sua obra (filosófica e literária) tem o absurdo como estandarte. A grosso modo, seus livros testemunham as angústias de seu tempo e os dilemas e conflitos já observados por escritores que o precederam, tal como Franz Kafka e Dostoiévski. Esta proximidade entre Camus e estes dois autores evidencia uma cadeia que se estende até os dias atuais, indica a fonte de um movimento heterogêneo - abrange arte, teatro, literatura, filosofia -, que por conveniência poderemos identificar como a estética do absurdo. Alguns ilustres filiados a este movimento cujo foco é o absurdo são eles: Samuel Beckett e Eugène Ionesco.
Camus morreu em 1960 vítima de um acidente de automóvel. Em sua maleta estava contido o manuscrito de "O Primeiro Homem", um romance autobiográfico. Por uma ironia do destino, nas notas ao texto ele escreve que aquele romance deveria terminar inacabado. Ao receber a noticia da morte de sua filha Catherine Hélène Camus apenas pode dizer: "Jovem demais". Coincidentemente ele também morre no mesmo ano: 1960

A peste, iniciada em 1941, simboliza o Mal. Contra ela, o homem pode provar que não precisa ficar totalmente impotente diante do destino que lhe é apresentado.
O homem revoltado, em 1951, não diz outra coisa. "Quis dizer a verdade sem deixar de ser generoso", escreve Camus a respeito deste ensaio, que lhe valeu inimizades e o indispôs com Sartre. Cinco anos depois, A queda parece o fruto amargo do tempo das desilusões, do isolamento, da solidão. Desta vez, a vilã é a natureza humana. Em 1957, Camus recebia o Prêmio Nobel.
 

 

 

A sua obra:

JANINE
MARIE
NÚPCIAS, O VERÃO
A QUEDA
A PESTE
A PESTE (sobre a religião)
A Peste (textos sobre Deus)
O HOMEM REVOLTADO
O HOMEM REVOLTADO: SOBRE EPICURO E LUCRÉCIO
O HOMEM REVOLTADO: ALÉM DO NIHILISMO
O ESTRANGEIRO
O MITO DE SÍSIFO
O PRIMEIRO HOMEM
DIÁRIO DE VIAGEM
O AVESSO E O DIREITO
REGRESSO A TIPASA
PROMETEU NOS INFERNOS
DO MAR BEM PERTO Diário de bordo
O DONJUANISMO


 

A PESTE

O livro que lhe granjeou o reconhecimento e o Nobel
O cenário é Oran, num ano indefinido da década de 40. A cidade é infestada de ratos contaminados pela peste bubônica, e os habitantes assistem, incrédulos, à disseminação do mal. Eles se recusam a aceitar a verdade, afirmando que aquela era uma doença do século anterior e completamente erradicada no Ocidente. Enquanto até mesmo as autoridades tentavam se desvencilhar das evidencias, a peste se infiltrava e ini¬ciava sua inexorável matança..
 

Oran - Argélia

 

Numa linguagem clara e objetiva, através de personagens ricos e diálogos repletos de reflexão filosófica, Camus constrói sua trama à semelhança de um mosaico: à primeira vista, desenha-se uma situação definida, mas por trás estão o homem e os infinitos meandros de sua natureza.

O CONCEITO FILOSÓFICO (E POLÉMICO) DE DEUS EM CAMUS

Camus recusa a idéia de Deus, ele diz não aceitar a noção de um Deus cuja existência não teria nenhum assento na realidade sensível. Ele não faz nenhuma concessão a esse Deus que não intervém no problema do mal. Do problema do mal nasce o silêncio de Deus, e esse silêncio se moldará a noção dessa divindade. Camus não aceita que o assassinato de Abel não fosse impedido por Deus. Para ele, se Deus permite tudo, ele é responsável por tudo. Pior ainda, foi o próprio Deus que insuflou o homicídio no coração de Caim. Para Camus, Deus é “uma divindade cruel e caprichosa, aquela que prefere, sem motivo convincente, o sacrifício de Abel àquele de Caim e que, por isso, provoca o primeiro assassinato”. Por isso, Camus não vai aceitar um Deus arbitrário em suas decisões. O escritor tira a razão de Deus por motivos morais. Ele recusa duplamente a fé como recusa a injustiça e o privilégio. Deus, para Camus, é visto como o pai da morte e o supremo escândalo.

fragmento do livro A PESTE :

(...) No entanto, onde uns viam a abstração, outros viam a verdade. De fato, o fim do primeiro mês de peste foi obscurecido por uma recrudescência acentuada da epidemia e um sermão veemente do padre Paneloux, o jesuíta que assistira o velho Michel no princípio da doença. O padre Paneloux já se havia distinguido por colaborações freqüentes no boletim da Sociedade de Geografia de Oran, onde suas reconstituições epigráficas constituíam autoridade. Mas conquistara um auditório mais vasto que o de um especialista ao fazer uma série de conferências sobre o individualismo moderno. Mostrara-se, então, defensor ardoroso de um cristianismo exigente, igualmente distanciado da libertinagem moderna e do obscurantismo dos séculos passados. Nessa ocasião não poupara duras verdades ao seu auditório. Daí a sua reputação.
Ora, por volta do fim do mês, as autoridades eclesiásticas da nossa cidade decidiram lutar contra a peste pelos seus próprios meios, organizando uma semana de preces coletivas. Estas manifestações da piedade pública deviam terminar no domingo com uma missa solene, sob a invocação de S. Roque, o santo atacado pela peste. Nessa ocasião, tinham dado a palavra ao padre Paneloux. Há uns quinze dias que este se arrancara aos seus trabalhos sobre Santo Agostinho e a Igreja africana que lhe haviam granjeado um lugar à parte na sua ordem. De temperamento fogoso e apaixonado, aceitara com determinação a missão de que o encarregavam. Muito antes desse sermão, já se falava dele na cidade e marcou, à sua maneira, uma data importante na história deste período.
A semana de preces foi seguida por um público numeroso. Não é que em tempos normais os habitantes de Oran sejam particularmente piedosos. No domingo de manhã, por exemplo os banhos de mar fazem séria concorrência à missa. Não era também que uma súbita conversão os tivesse iluminado. Mas, por um lado, com a cidade fechada e o porto interditado, os banhos não eram possíveis e por outro lado, encontravam-se num estado de espírito bem singular em que sem terem admitido no fundo de si próprios os acontecimentos surpreendentes que os atingiam, sentiam efetivamente que algo, é óbvio, mudara No entanto, muitos continuavam a esperar que a epidemia parasse e que eles fossem poupados, com as suas famílias. Por conseqüência não se sentiam ainda obrigados a nada. A peste nada mais era para eles do que uma visita desagradável que havia de partir um dia, já que tinha vindo. Assustados, mas não desesperados, não chegara ainda o momento em que a peste lhes surgiria como a própria forma da sua vida e em que esqueceriam a existência que até agora tinham podido levar. Em suma, estavam na expectativa. No que se refere à religião, como a muitos outros problemas, a peste tinha-lhes dado uma singular atitude de espírito, tão afastada da indiferença como da paixão que bem podia definir-se pela palavra “objetividade”. A maior parte dos que seguiram a semana de preces poderia ter feito sua a frase que um dos fiéis havia proferido diante do doutor Rieux: “De qualquer maneira, mal não pode fazer.” O próprio Tarrou, depois de ter anotado nos seus cadernos que os chineses, em casos semelhantes, vão tocar tambor diante do gênio da peste, observava que era absolutamente impossível saber se, na realidade, o instrumento se mostrava mais eficaz que as medidas profiláticas. Acrescentava, apenas, que para decidir a questão, seria preciso estar informado sobre a existência de um gênio da peste e que a nossa ignorância sobre este ponto tornava estéreis todas as opiniões que se pudesse ter.
De qualquer modo, a catedral da nossa cidade esteve quase cheia de fiéis durante toda a semana. Nos primeiros dias, muitos habitantes ficavam ainda nos jardins de palmeiras e romãzeiras que se estendem, diante do pórtico, para ouvirem a maré de invocações e de preces que refluíam até às ruas. Pouco a pouco, com o auxílio do exemplo, os mesmos ouvintes decidiram-se a entrar e a mesclar uma voz tímida aos responsos da assistência. E, no domingo, uma multidão considerável invadiu a nave, transbordando até a& adro e aos últimos degraus da escadaria. Desde a véspera, o céu tinha-se toldado, a chuva cala pesada-mente. Os que estavam do lado de fora tinham aberto os guarda-chuvas. Um cheiro de incenso e de molhado flutuava na catedral quando o padre Paneloux subiu ao púlpito.
Era de estatura mediana, mas robusto. Quando se apoiou ao rebordo do púlpito, apertando a madeira entre as mãos grandes, não se via nele senão uma forma espessa e negra, encimada pelas manchas de duas faces rubicundas sob os óculos de aço. Tinha uma voz forte, apaixonada, que alcançava longe, e quando atacou a assistência com uma única frase veemente e martelada: « Irmãos, caístes em desgraça, irmãos, vós o merecestes, a assistência se tumultuou.
Logicamente, o que se seguiu não parecia estar de acordo com este exórdio patético. Só a seqüência do discurso fez compreender aos nossos concidadãos que, por um hábil processo oratório, o padre tinha dado de uma só vez, como um golpe que se desfecha, o tema de todo o seu sermão. Logo depois
desta frase, Paneloux citou o texto do êxodo relativo à peste do Egito e disse: «A primeira vez que este flagelo aparece na história é para atacar os inimigos de Deus. O faraó opõe-se aos desígnios eternos e a peste o
faz então cair de joelhos. Desde o princípio de toda a história, o flagelo de Deus põe a seus pés os orgulhosos e os cegos. Meditais sobre isto e caí de joelhos.”
A chuva redobrava lá fora e esta última frase pronunciada no meio de um silêncio absoluto, que se tornou ainda mais profundo pelo crepitar da tempestade sobre os vitrais, ressoou com tal inflexão que alguns ouvintes, depois de um segundo de hesitação, deixaram-se deslizar da cadeira para o genuflexório. Outros julgaram que era necessário seguir o exemplo, de tal modo que, de vizinho a vizinho, sem outro ruído que não fosse o ranger de alguma cadeira, todo o auditório se encontrou logo ajoelhado. Paneloux endireitou-se então, respirou profundamente e continuou, num tom mais veemente: “Se hoje a peste vos olha, é porque chegou o momento de refletir. Os justos não podem temê-la, mas os maus têm razão para tremer. Na imensa granja ~do universo, o flagelo implacável baterá o trigo humano até que o joio se separe do grão. Haverá mais joio que grão, mais chamados que eleitos e es:a desgraça não foi desejada por Deus. Por longo tempo, este mundo compactuou com o mal, repousou na misericórdia divina. Bastava arrepender-se, tudo era permitido. E para se arrependerem, todos se sentiam fortes. Che-. gado o momento, o arrependimento viria por certo. Até lá, o mais fácil era deixar se levar, a misericórdia divina faria o resto. ~Pois bem! Isto não podia durar. Deus, que durante tanto tempo baixou sobre os homens desta cidade o seu rosto de piedade, cansado de esperar, desiludido na sua eterna esperança, acaba de afastar o olhar. Privados da luz de Deus, eis-nos por muito tempo nas trevas da peste!»
Na sala, alguém soprou como um cavalo impaciente. Depois de um a curta pausa, o padre continuou, num tom mais baixo:
“Lê-se na Lenda Aurea que no tempo do rei Humberto, na Lombardia, a Itália foi devastada por uma peste tão violenta que os vivos mal chegavam para enterrar os mortos. Esta peste castigava sobretudo Roma e Pavia. E um anjo bom apareceu visivelmente, dando ordens ao anjo mau, que trazia uma lança de caça, ordenando-lhe que batesse nas casas. E tantas vezes quantas uma casa recebia pancadas, tantos mortos havia que dela saiam.
Paneloux estendeu aqui os dois braços curtos na direção do adro, como se mostrasse alguma coisa por detrás da cortina móvel da chuva. “Meus irmãos”, disse com força, “é a mesma caçada mortal que hoje prossegue nas nossas ruas. Vede-o, esse anjo da peste, belo .como Lúcifer e brilhante como o próprio mal, erguido acima dos vossos telhados, empunhando a lança vermelha à altura da cabeça, designando com a mão esquerda uma das vossas casas. Neste mesmo instante, talvez, o seu dedo estende-se para a vossa porta, a lança ressoa sobre a madeira:
mais um instante e a peste entra em vossa casa, senta~se no vosso quarto e espera o vosso regresso. Ela está lá, paciente e atenta, segura como a própria ordem do mundo. Essa mão que ela vos estenderá, nenhum poder humano, nem sequer, sabei-o bem, a vã ciência humana, pode fazer com que a eviteis. E, bati­dos na eira sangrenta da dor, sereis repelidos como a palha.”
Aqui, o padre retomou, com mais amplidão ainda, a imagem patética do flagelo. Evocou a imensa lança volteando por cima da cidade, atacando ao acaso e erguendo-se de novo, ensangüentada; espalhando, enfim, o sangue e a dor humana pøra as sementeiras que preparariam as searas da verdade.”
Ao fim deste longo período, o padre Paneloux parou, com os cabelos caídos sobre a fonte, o corpo agitado por um tremor que as mãos comunicavam ao púlpito, e prosseguiu, mais surda-mente mas em tom acusador: “Sim, chegou a hora de refletir. Pensastes que vos bastaria visitar Deus aos domingos para ficardes com vossos dias livres. Pensastes que algumas genuflexões pagariam suficientemente o vosso desleixo criminoso. Mas Deus não é fraco. Essas atenções espaçadas não bastavam à sua ternura devoradora. Ele queria ver-vos mais tempo, é a sua maneira de vos amar que é, a bem dizer, a única maneira de amar. Eis por que, cansado de esperar a vossa vinda, deixou que o flagelo vos visitasse, como visitou todas as cidades do pecado desde que os homens têm história. Sabeis agora o que é o pecado, como o souberam Caim e seus filhos, os de antes do Dilúvio, os de Sodoma e Gomorra, Faraó e Job e também todos os malditos. E, como esses o fizeram, é um olhar novo que lançais sobre os seres e as coisas, desde o dia em que esta cidade fechou os seus muros em torno de vós e do flagelo. Sabeis agora, finalmente, que é preciso chegar ao essencial.”
Um vento úmido infiltrava-se agora na nave e as chamas dos círios curvavam-se, crepitando. Um cheiro espesso de cera, tosses, um espirro chegaram até ao padre Paneloux que, voltando à sua exposição com uma sutileza que foi muito aprecia da, prosseguiu com a voz calma: “Muitos dentre vós, bem o sei, perguntaram a si próprios aonde quero chegar. Quero fazer-vos chegar à verdade e ensinar-vos a vos regozijar, apesar de tudo o que vos disse. Passou o tempo em que os conselhos, uma mão fraterna eram os meios de vos guiar para o bem. Hoje, a verdade é uma ordem. E o caminho da salvação é uma lança vermelha que vos aponta e vos conduz. Ë aqui, meus irmãos, que se manifesta, enfim, a misericórdia divina que colocou em todas as coisas o bem e o mal, a cólera e a piedade, a peste e a salvação. Este mesmo flagelo que vos aflige, vos eleva e vos mostra o caminho. Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam na peste um meio eficaz, de origem divina, para alcançar a Eternidade. Os que não eram atingidos, enrolavam-se nas roupa contaminadas para terem a certeza de morrer. Sem duvida, esta fúria de salvação não é recomendável. Ela revela uma precipitação lamentável, bem próxima do orgulho. Não se deve ser mais apressado que Deus, e tudo o que pretende acelerar a ordem imutável que Ele estabeleceu de
uma vez para sempre conduz à heresia. Mas, ao menos, este exemplo comporta uma lição. Para os nossos espíritos mais clarividentes, ele faz apenas valer esse clarão sublime de eternidade que jaz no fundo de todo sofrimento. Ele ilumina esse clarão, os caminhos crepusculares que conduzem à libertação. Ele manifesta a vontade divina que, sem fraquejar, transforma o mal em bem. Hoje ainda, através desta caminhada de morte, de angústias e de clamores, Ele guia-nos para o silêncio essencial e para o princípio de toda a vida. Eis, meus irmãos, o imenso consolo que queria vos trazer para que não leveis apenas daqui as palavras que castigam, mas também um verbo de paz” .
Sentia-se que o padre Paneloux terminara. Lá fora a chuva havia cessado. Um céu mesclado de água e de sol derramava sobre a praça uma luz mais brilhante. Da rua, chegavam ruídos de vozes, o deslizar de veículos, toda a linguagem de uma cidade que desperta. Os ouvintes juntavam discretamente os seus pertences, com um sussurro surdo. Entretanto, o padre retomou £ palavra e disse que, depois de ter mostrado a origem divina da peste e o caráter punitivo deste flagelo, tinha terminado e não faria apelo, para concluir, a uma eloqüência que seria inoportuna em matéria tão trágica. Parecia-lhe que tudo devia ser claro para todos. Lembrou apenas que, por ocasião da grande peste de Marselha, o cronista Mathieu Marais se queixara de estar mergulhado no Inferno, vivendo assim sem socorro e sem esperança. Pois bem! Mathieu Marais era cego! Nunca, mais que hoje, pelo contrário, o padre Paneloux tinha sentido o socorro divino e a esperança cristã que eram oferecidos a todos. Ele esperava, contra toda a esperança, que a despeito do horror destes dias e dos gritos dos agonizantes, os nossos concidadãos ao Céu a única palavra que era cristã e que era de amor. Deus faria o resto (...)

 

 O ESTRANGEIRO,
outra das suas obras de referência

 

Excerto:
As luzes da rua acenderam-se bruscamente e fizeram empalidecer as primeiras estrelas que subiam na noite. Senti os olhos se cansarem, de tanto olhar as calçadas, com sua carga de homens e de luzes.
Respondi que nunca se muda de vida; que, em todo caso, todas se equivaliam, e que a minha, aqui, não me desagradava em absoluto.
Todo o problema, ainda uma vez, estava em matar o tempo. Acabei por não me entediar mais, a partir do instante em que aprendi a recordar.
Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldade passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar.
Nunca conseguira arrepender-me verdadeiramente de nada.Assaltaram-me as lembranças de uma vida que já não me pertencia, mas onde encontrara as mais pobres e as mais tenazes das minhas alegrias: cheiros de verão, o bairro que eu amava, um certo céu de entardecer, o riso e os vestidos de Marie.
Mamãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz.
Mas todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida.
— Não tem, então nenhuma esperança e consegue viver com o pensamento de que vai morrer todo por inteiro?
—Sim — respondi.
— Não, não consigo acreditar. Tenho certeza de que já lhe ocorreu desejar uma outra vida.
Respondi-lhe que naturalmente, mas que isso era tão importante quanto desejar ser rico, nadar muito de pressa ou ter uma boca mais bem feita. Era da mesma ordem. Mas ele me deteve e quis saber como eu imaginava essa outra vida. Então gritei:
— Uma vida na qual me pudesse lembrar desta vida.
Do fundo do meu futuro, durante toda esta vida absurda que eu levara, subira até mim, através dos anos que ainda não tinham chegado, um sopro obscuro, e esse sopro igualava, à sua passagem, tudo o que me haviam proposto nos anos, não mais reais, que eu vivia.
Tudo quanto eu fazia de inútil neste lugar subiu-me, então, à garganta e só tive uma pressa: acabar com isto e voltar à minha cela, para dormir. Mal ouvi o advogado clamar, para concluir, que os jurados não gostariam certamente de condenar à morte um trabalhador honesto, perdido por um minuto de desvario; e pedir as circunstâncias atenuantes para um crime cujo remorso eterno, o mais seguro dos castigos, eu já arrastava comigo.
Reencontrei a calma, depois que ele partiu. Estava esgotado. Atirei-me sobre o leito. Acho que dormi, pois acordei com estrelas sobre o rosto. Subia até mim os ruídos do campo. Aromas de noite de terra e de sol refrescavam-me as têmporas. A paz maravilhosa deste verão adormecido entrava em mim como uma maré. Neste momento, e no limite da noite, soaram sirenes. Anunciavam partidas para um mundo que me era para sempre indiferente.
Também eu me sinto pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à tenra indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que fora feliz e que ainda o era.

 

Camus por Petr Vorel

 

O problema do sentido da existência
“Quem é que, num momento ou noutro, ao olhar um céu noturno, ao contemplar uma flor ou ao reflectir sobre si próprio e os outros seres humanos, não se interrogou já acerca da razão de ser disto tudo ou não se perguntou por que razão está aqui e como deve viver para que a sua vida tenha sentido? Estas são questões que têm intrigado os homens desde tempos imemoriais e são certamente algumas das perguntas mais importantes que o ser humano pode colocar sobre si próprio. Há mesmo quem, como Albert Camus, vá ao ponto de afirmar que estas são as únicas questões verdadeiramente importantes:
Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder. (...)

 

Se pergunto a mim próprio como decidir se determinada interrogação é mais premente do que outra qualquer, concluo que a resposta depende das acções a que elas incitam, ou obrigam. Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. Fez bem, em certo sentido. Essa verdade não valia a fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol, gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. A bem dizer, é um assunto fútil. Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas idéias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer). Julgo pois que o sentido da vida é o mais premente dos assuntos ― das interrogações.”
Albert Camus, in: O Mito de Sísifo

 

 

Pensamentos de Camus:

Sempre acabamos adquirindo o rosto das nossas verdades.

E, no meio de um inverno, eu finalmente descobri que havia dentro de mim um verão invencível.
A vida é a soma das suas escolhas.

Se amar bastasse, as coisas seriam simples. Quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo. Mas do amor só conheço a mistura de desejo, ternura e entendimento que me liga a determinado ser. Por que seria preciso amar raramente para amar muito?

Nada é mais desprezível do que o respeito baseado no medo.

Por que sou um artista e não um filósofo? É que penso segundo as palavras e não segundo as ideias.

O êxito é fácil de obter. O difícil é merecê-lo.

A tentação mais perigosa: não se parecer com nada.

Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, mesmo que perfeita, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.

O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade
 

 

 

 

Pesquisa e edição:

( Fontes: Internet )
 
 
 

 

Tube Still_Life_110

Wav:Songs_From_A_Secret_Garden

 

 

 

VOLTAR