A Beleza da Poesia Renascentista
 
Frei Agostinho da Cruz
 
 
 
Século XVI
 
 
 
 
Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
 
 
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
 
 
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
 
 
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
 
 
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
 
 
 
 
Convento de Santa Cruz, ou dos Capuchos, em Sintra  
 e   Sela  que terá sido usada pelo frade.
 
 
 
 
 
 
 
Veja-se com então já se escreviam belos sonetos:
 
 
Perdi-me dentro em mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Continuo, contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.
 
 
Vejo seguro o dano, o bem incerto;
Comigo porfiando-me desminto,
O que mais atormenta, menos sinto,
O que me foge, quando está mais certo.
 
 
E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte, onde está escondida
A causa deste vário movimento,
 
 
Transforma-se por não ser conhecida,
Porque quer apesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.
 
 
 

 
   Convento da Arrábida e mural decorado a azulejo reproduzindo o frade,
que ali viveu os seus últimos anos       
 
 
 
 
 
 
À morte
 
Os correos da morte são chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.
 
 
E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossível será serem contados.
 

Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.
 
 
Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.
 
 
 
 
 

Nota de pesquisa:

Frei Agostinho da Cruz (nascido Agostinho Pimenta, em 1540, em Ponte da Barca, Portugal), morreu em 1619, na Serra da Arrábida. Era irmão do também poeta Diogo Bernardes, mas a sua belíssima poesia mereceu à época pouca atenção crítica. Era uma poesia mística, escrita quase toda no final da vida, quando, depois de 45 anos passados no convento de Santa Cruz, na Serra de Sintra, como monge franciscano, decidiu tornar-se Anacoreta, passando a viver na Serra da Arrábida, onde ficou 14 anos, até morrer.

 
 
 
 
 
 
 
Pesquisa e edição:
 
( Fontes: Internet )
 
 
 
 
 

 

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