BRADO
Camané
 
Poema:
David Mourão-Ferreira
 
 
Fosse por horas contado
O vento que nos afasta
Seria o mais longo fardo
Com essa força de um brado
Que a garganta nos desgasta

Fosse por dias contado
Todo o mar que nos separa
Seriam dias a nado
Sem nada mais que o brado
De quem nas vagas naufraga

Fosse por meses contado
O céu que não nos agarra
Seria um céu desdobrado
Multiplicado no brado
De cem milhões de guitarras

Só de outros modos contado
Pode ser o que nos mata
Só por gritos de afogados
Só por séculos de fado
Só por milénios de nada

 
Só por gritos de afogados
Só por séculos de fado
Só por milénios de nada