Dante Alighieri

Retratado por Sandro Botticelli

 

                                                   Iália - Séculos XIII  e  XIV                                                                  

Nasceu em Florença, em 1 de Maio de 1265 e faleceu em Ravena, em 13 (ou 14) de Setembro de 1321. Foi um escritor, poeta e político italiano.  É considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como il sommo poeta (o sumo poeta).                                 


Dante, foi muito mais que apenas um literato numa época onde apenas os escritos em latim eram valorizados. Redigiu um poema, de viés épico e teológico: La Divina Commedia (A Divina Comédia), que se tornou a base da língua italiana moderna, e culmina  a afirmação da forma medieval de entender o mundo. Nasceu em Florença, onde viveu a primeira parte da sua vida até ser injustamente exilado. O exílio foi-lhe ainda mais castigador do que uma simples separação física de sua terra natal, porque foi abandonado pelos seus pares. Apesar dessa condição, seu amor incondicional  e capacidade visionária transformaram-no no mais importante pensador de sua época.


Dante é, porventura, de todos os poetas do Dolce stil nuovo, o mais avesso a complacências sensoriais.  Sabemos, por uma tradição digna de crédito, que o Dante vivo era muito sensível ao fascínio dos encantos femininos, e mesmo às experiências fisicamente eróticas, como nos informa Boccaccio, mas na Vita Nuova não era possível serem fixados resíduos de uma tal humanidade, pois Dante movia--se num mundo lírico que não conseguiu revolucionar, como faria depois Petrarca.


  

 

A SUA POESIA

 Sonetos

 

Palavras que no mundo vão correr,

vós que nascestes com meu nascimento,

dizendo à dona de meus sentimentos:

"vós que o terceiro céu sabeis mover",

 

Segui aonde ela está; deveis saber

que há de chorar com vosso esquecimento;

dizei: "Nós somos vossas, mas o intento

quer que não mais volteis a nos rever".

 

Com ela não fiqueis, não é Amor;

então vagai com vosso ar dolente

como as irmãs antigas ao penhor.

 

Quando encontrardes dama de valor,

chegai dizendo a ela, humildemente:

"A vós viemos prestar nosso louvor".

  

 

  

Dama gentil, às vossas mãos envia

meu coração o espírito sem vigor:

e tão dolente ele se vai que Amor

o mira com piedade e assim o desvia.

 

Vós o legastes à sua senhoria

de tal modo que não mais tem valor

e apenas isto diz: "Ó meu senhor,

o que quereis entrego sem porfia".

 

Bem sei que o vil contente não vos faz;

mas a morte, que a mim não foi servida,

vem se alojar amarga no meu peito.

 

Minha dama gentil, enquanto há vida,

para que eu morra consolado e em paz,

não me negueis semblante tão perfeito.

  

 

  

Sextina

 

Ao dia exíguo e ao grande anel de sombra

exausto chego, e ao branco das colinas,

quando já se desfaz a cor na erva:

não perde, entanto, o meu desejo o verde,

pois enraizado está em dura pedra

que fala e sente como uma senhora.

 

Similarmente esta nova senhora

está gelada como neve em sombra;

não a remove, senão como pedra,

o doce tempo que envolve as colinas

e que transforma todo o branco em verde

porque as recobre de flores e de erva.

 

Quando ela traz uma guirlanda de erva,

tira da nossa mente outra senhora:

porque tão bem se mescla o louro ao verde

que Amor acorre e vem ficar-lhe à sombra,

a me encerrar entre baixas colinas,

muito mais forte que calcária pedra.

 

Mais régia é sua beleza do que pedra

e seu golpe sanar não pode a erva;

que eu já fugi por planos e colinas

tentando me afastar desta senhora;

e ao seu lume não vejo qualquer sombra

de graves muros nem de fronde verde.

 

Vestida um dia a vi, toda de verde,

tão bela que ela já guardara em pedra

esse amor que transporto à sua sombra,

onde eu a quis em grato prado de erva

enamorada, tal rara senhora,

e cercada de altíssimas colinas.

 

Mas bem os rios retornam às colinas

antes que eu sinta todo o lenho verde

se inflamar, como ocorre a uma senhora,

por mim; então irei dormir em pedra

todo o meu tempo e me servindo de erva,

só para ver o trajo seu em sombra.

 

Quando quer que as colinas tragam sombra,

sob tão belo verdor esta senhora

a faz oculta, pedra sob a erva.

   

 

  

Canção

 

Amor, agora vês que esta senhora

o teu valor não teme em algum tempo,

que d'outras damas já se fez senhora;

e ao perceber que era minha senhora

pelo teu raio que me envolve em luz,

da crueldade se tornou senhora;

ela não coração tem de senhora,

mas como o de uma fera imerso em frio,

que pelo tempo quente ou pelo frio

me faz ter na memória uma senhora

que fosse feita d'uma bela pedra

por mão de quem melhor talhasse pedra.

 

E eu, que mais pertinaz sou do que pedra

a te servir por tão bela senhora,

oculto levo o golpe de uma pedra

com a qual tu me feriste como a pedra

que te cansou durante muito tempo,

vindo ao meu coração, onde sou pedra.

Pois não se descobriu nenhuma pedra

ou de esplendor do sol ou sua luz,

que virtude tivesse ou mesmo luz

que me afastar pudesse desta pedra,

p'ra qu'ela não me atasse com seu frio

nem me levasse a ter da morte o frio.

 

Senhor, tu sabes que o vigor do frio

transforma a água em cristalina pedra

lá sob a tramontana, onde faz frio,

e o ar também em elemento frio

se faz; assim a água é tal senhora

naquela parte por razão do frio:

então diante de um semblante frio

meu sangue é frio durante todo o tempo,

e o pensamento que me encurta o tempo

se me converte todo em corpo frio,

que se dissolve por meio da luz

por onde entrou a rigorosa luz.

 

Nela a beldade expõe toda a sua luz;

assim de toda crueldade o frio

lhe chega ao coração, que não há luz:

porque no olhar tanto me assalta luz

quando a contemplo, qu'eu a vejo em pedra

aonde quer eu lance a minha luz.

A mim seus olhos cedem doce luz

e não posso querer outra senhora:

se mais piedosa fosse essa senhora...

pois eu a chamo à noite ou mesmo à luz

e sirvo-a em qualquer lugar e tempo!

Por tal viver desejo muito tempo.

 

Porém, Virtude, anterior ao tempo,

ao movimento e à mais sensível luz,

apieda-te de mim neste mau tempo;

vai ao seu coração, que já é tempo,

e assim por ti desapareça o frio

que não me deixa ter, com'outros, tempo:

que se me chega o teu mais forte tempo

em mau estado, essa bondosa pedra

há de me ver deitado em pouca pedra

p'ra só me levantar depois do tempo,

quando verei se no mundo senhora

houve mais bela e acerba que senhora.

 

Canção, trago na mente uma senhora

tal que, mesmo se assemelhando à pedra,

me dá vigor, e o homem vejo frio;

então eu ouso e faço desse frio

o novo que por tua forma luz

e não sonhado foi em algum tempo.

 

  

 

 Balada

 

Vós que tão bem sabeis falar d'Amor,

ouvi minha balada piedosa

que fala d'uma dama desdenhosa,

a qual roubou-me o peito por valor.

 

Tanto desdenha aquele que a admira

que dele abaixa o olhar em amargura,

pois ao redor de seus olhos retira

um gênio a crueldade e desventura.

Mas este olhar traz a doce figura

que faz a alma gentil dizer: "Mercê!"

Tão virtuosa que, quando se vê,

suspira o coração imerso em dor.

 

Eis o que diz: "Serei um tanto hostil

com aqueles quem desejam meu olhar,

pois nele trago o bom senhor gentil

que já me fez sentir seu dardejar".

Pois acredito que cerra o olhar

pra observá-los quando bem lhe apraz;

desse modo a formosa dama faz

quando se olha, para o próprio honor.

 

Eu não espero que pela piedade

deseje contemplar algum semblante,

pois é dama feroz em sua beldade

a que no olhar transporta Amor galante.

Mas tanto quer guardá-lo que, possante,

não me permite ver tanta virtude;

no entanto o meu desejo não se ilude

e luta com o desdém, o meu temor.

 

 

 

Estância

 

Meu peito servidor

vos recomenda Amor, que vos tem dado,

e Mercê d'outro lado

de mim vos traz alguma relembrança;

pois do vosso valor

antes qu'eu tenha muito me afastado,

me tem já confortado

de retornar a minha doce esp'rança.

Ó Deus, pouco permaneci na estância,

segundo o parecer!

assim para vos ver

quer regressar a mente em segurança,

pois tanto a caminhar ou descansando,

dama gentil, estou a vós me dando

 

 

 

 

Pesquisa e Edição

( Fontes: Internet - diversas )

 

 

 

 

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