Dante e Beatriz - John william Waterhouse
 
 
[VÊ-SE DENTRO DO CÉU PRODIGAMENTE]
 
Vê-se dentro do céu prodigamente
quem minha amada entre outras damas veja.
E toda aquela que a seu lado esteja
rende graças a Deus por ser clemente.
 
Tanta virtude tem sua beleza
que inveja acaso às outras não consente,
por isso as tem vestida simplesmente
de confiança, de amor, de gentileza.
 
Tudo se faz humilde em torno dela;
por ser sua visão assim tão bela
às que a cercam também chega o louvor.
 
Pela atitude mostra-se tão mansa
que ninguém pode tê-la na lembrança
que não suspire, no íntimo, de amor.
 
 Tradução Henriqueta Lisboa 
                                                                           

Dante: doutor em platonismo
 

 
 
"Doutor do amor platônico foi mesmo Dante Alighieri (1265-1321)! Evocar Dante pressupõe avivar Beatriz, sua musa, protagonista de A Divina Comédia. Se o Inferno é terrível, o paraíso também queima. "Por amor de escutar", Dante Avança ao cume celeste para encontrar sua amada, proclamando ao final que " o amor move o sol e as mais altas estrelas". Assim que a enxerga no céu, trata de agradecê-la por sua chegada, pois não atingiria a salvação por seus méritos. Demonstra pura submissão em prece.
 
Apesar de todo o catolicismo impregnado na obra, poderíamos chamar o poeta de o primeiro grande infiel na literatura. Por quê? Sua esposa Gemma di Manetto Donati sequer é mencionada alguma vez em sua trajetória lírica. Nem há igualmente menções aos três filhos do casamento: Jacopo, Pietro e Antonia. Em compensação, segundo cálculo do tradutor Hernâni Donato, Beatriz desponta 64 vezes de modo direto ao longo dos 14.233 versos de A Divina Comédia. Ganha de Cristo (40 vezes) e tem o triplo de saudações de Maria (22), perdendo apenas para Deus.
Quer maior adoração?
 
Tudo bem que o matrimônio com Gemma é resultado de um arranjo familiar, quando o autor era menino, mas a comparação entre a amante real e a amante fictícia é assustadoramente desequilibrada. Para uma, a omissão e a indiferença. Para outra, a fé e a devoção completa.
 
Ausência que se agrava ao constatar a extrema pessoalidade e interferência biográfica em sua criação poética. A vida de Dante está ali, menos Gemma. Como diz Eric Auerbach " ele penetrava em cada um de seus personagens sem deixar de ser Dante".
 
O amor em Dante antecipa o sadismo e a sensualidade frustrada. Como ponderou Borges" Beatriz existia infinitamente para Dante; Dante existia muito pouco, e talvez nem existisse para Beatriz".
 
É de imaginar que Dante realmente conheceu Beatriz, na verdade Beatrice Portinari, filha de Folco dei Portinari, para engrandecê-la com tal intensidade. Não, ela se casou com Simone dei Bardi, e talvez Dante não passasse de um vulto efêmero para ela. Um passante. Beatriz é a imaginação do amor, em vez de lava da memória.
 
Mal conheceu a jovem. O primeiro encontro ocorreu aos 9 anos. O segundo, nove anos depois, aos 18. É possível que ele nunca tenha falado com ela, no máximo cumprimentado em via pública. Quando Beatriz morreu, em 1290, o poeta estava com 25 anos de idade, dois anos antes de escrever Vita Nuova, em que declara seu fascínio por ela, e 27 anos antes de iniciar o Inferno. Dante foi o marido imaginário de sua morte mais do que uma promessa real de sua vida.
 
In: Dossiê A Invenção do Amor - Revista Entrelivros   


 
                                                                                    
 

 
 
Dante y Beatriz, por el pintor prerrafaelista Henry Holiday, que imagina el encuentro entre Dante y Beatriz en el Puente Santa Trinida
 

[É TÃO GENTIL E TÃO HONESTO O AR]
 
É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.
 
Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.
 
Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.
 
E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d'alma vai dizer: "Suspira!"
 
 Tradução: Augusto de Campos
 
 

Vita Nuova - livro  com os sonetos em que  Dante descreve seu amor por Beatriz

                    
 
Beatriz
Livio Panizza (UERJ)
 
 
"A figura de Beatriz está presente e sofre uma metamorfose significativa em três momentos da obra literária de Dante: Vita Nuova, Convívio, Divina Comedia. Do amor carnal, da paixão presente no início da Vita Nuova eleva-se a expressões de amor mais elaboradas, próprias da “charitas”, reforçadas pelas experiências intelectuais do Convívio até chegar a formas espiritualizadas e sublimadas na Divina Comédia. Dante, no início da Vita Nuova amou Beatriz segundo os cânones do amor cortês, cantando a beleza do seu olhar “che ´ntender non la può chi no la prova”, a beleza de sua face, a graça e a modéstia de seus gestos. Nesse primeiro encontro Dante é presa de turbações e de angústias que invadem até seus sonhos, mas ao término da obra seus sentimentos são sublimados, elaborando uma lírica de louvor em honra desse amor que deve ser desinteressado e puro. Beatriz é definida como:
 
tanto gentile e tanto onesta pare,
cosa venuta dal cielo in terra a miracol mostrare.
 
 
“Cosa” é um termo indefinido, porém real, concreto, mas também celestial, vinda do céu, reflexo do desejo de ascensão espiritual e purificação do poeta. Beatriz-mulher pertence à esfera privada da vida de Dante, à sua juventude, aos seus anos de amadurecimento humano e poético. O encontro com Beatriz representa uma nova etapa na vida poética e sentimental de Dante “rinnovata dall´amore”. Na Vita Nuova delinea-se aos poucos o caminho interior que leva o poeta a compreender que o objetivo de seu amor não pode estar ligado a nada material, nem mesmo à saudação, gesto tão significativo do amor cortês. O único objetivo de seu amor é cantar os louvores de sua Beatriz, ela é para Dante-Homem estímulo de introspecção espiritual e moral, e para Dante-poeta fonte de inspiração literária. A Vita Nuova termina com uma “mirabile visione”, após a qual Dante decide não mais falar dela até quando possa falar “ più degnamente trattare di lei”, anuncia que cantará sua mulher amada de forma diferente daquela até então usada, isto é do “stilnovismo”. Após a morte de Beatriz, Dante muda o enfoque o conteúdo de seu amor por ela, as qualidades extraordinárias exaltadas na Vita Nuova, são transmutadas na Divina Comédia, ela passa a ser veículo da graça divina, coerentemente com seu nome, ela é instrumento de beatitude. O amor juvenil por Beatriz, intensamente vivido, é revisto após a morte dela, à luz da filosofia e da teologia. Após a morte da amada, Dante sucumbiu numa profunda crise espiritual e poética, envolvendo-se com falsos amores e praticando fúteis ações. Superada a crise, Beatriz reaparece na Divina Comédia como guia do poeta no Paraíso, realizando-se em plenitude a profecia “venuta di cielo in terra a miracol mostrare”, milagre de amor divino e de beatitude, operado entre os homens, mas sobretudo Em Dante. Para delinear esta nova imagem e função de Beatriz, Dante não contava tão somente com os modelos provençais e corteses do “stilnovismo”, mas os “exempla”, biografias de santos e santas. Sem dúvida Dante, para exaltar a amada como “donna de la salute”, “piena di grazia”, “reina di virtudi”, “ distruggitrice di tutti i vizi” e cantar a Madonna já morta destacando sua força salvadora, recorreu aos perfis puros e luminosos das santas heroínas transformadas em “specula Christi”pelos hagiógrafos: Santa Clara, Santa Margarida, Beata Umiliana de Cerchi, Santa Giuliana Falconieri.
 
Para compreender a natureza do amor divino, é necessário um total desprendimento da alma; no mundo do além não existem convenções sociais, nem perturbações, nem mal-entendidos, aqui Beatriz assume seu verdadeiro papel: mestra de verdade. A função e o significado de Beatriz neste novo estado são bem diferentes dos exercidos na Vita Nuova. Na Comédia Dante representa a humanidade inteira, em nome da qual realiza uma viagem querida por Deus. Nesta nova dimensão Beatriz é o milagre: encarnação da revelação divina, mestra de verdade, mediadora de graça divina e realiza o milagre de conduzir não somente Dante ao Paraíso e à contemplação de Deus, mas a humanidade inteira.
 
 
Pesquisas diversas em livros, revistas e na Internet.
  
 
 
 
 
Imagens retiradas da NET
Wav: Mozart
Arte e Formatação: JoiceGuimarães
 
 
 
 
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